GAZETA MERCANTIL, SEGUNDA-FEIRA, 25 DE JANEIRO DE 1999

Educação corporativa ganha espaço nas escolas

Empresas de vários setores cada vez mais encomendam à FGV, USP, ESPM e outras instituições cursos fechados para seus funcionários.

Daniela D'Ambrosio, de São Paulo
Dezoito anos depois de pendurar o diploma de administração de empresas da Universidade São Judas Tadeu e viver exclusivamente da experiência profissional, o líder de projetos da área de sistemas da Credicard, Valdir Estácio, 37 anos, voltou à sala de aula. Trancafiado na rotina da empresa, atribulado com o dia-a-dia, Estácio não encontrava tempo nem sabia se valia a pena, financeiramente, investir na reciclagem.
De uma só vez, engordou o currículo com um diploma de pós-graduação em engenharia da computação pela Escola Politécnica da USP, um curso de extensão em gerenciamento de empreendimentos pela Fundação Getúlio Vargas, além de um curso de especialização em cliente-servidor ministrado pelo Instituto Brasileiro de Pesquisa em Informática (IBPI). Todos patrocinados pela empresa. "Hoje estou mais preparado e qualificado para enfrentar o cotidiano da companhia", diz.
É exatamente nisso que a Credicard aposta: profissionais com mentalidade de gestores, antenados com a realidade do mercado. Não é a única. Na mesma linha seguem empresas como Siemens, Promon, Ericsson, Volkswagen, Natura e IBM. Todas investem na educação corporativa, que inclui desde cursos de extensão e pós-graduação até o almejado MBA, sigla em inglês de Master Business Administration.
O papel da reciclagem e da complementação educacional está sendo assumido pelas organizações, que abandonaram o treinamento rápido em áreas específicas para oferecer um enfoque mais estratégico com isso, acabam completando a formação dos funcionários. Mas o objetivo é melhorar a gestão e, consequentemente, ganhar competitividade e dar melhor atendimento ao cliente.
"Embora sejamos uma empresa de serviços, que depende 100% da tecnologia, não queremos funcionários apenas com conhecimento técnico, mas também com visão estratégica do negócio", afirma o vice-presidente de RH da Credicard, Licio Nogueira. "As empresas querem ensinar os seus funcionários a gerir negócios dentro de uma nova realidade de mercado", destaca o diretor-geral de graduação da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), Luiz Gracioso.
A VoIkswagen também decidiu abrir a cabeça dos seus funcionários com cursos mais aprofundados. "Percebemos que os workshops e seminários não eram suficientes e não estavam suprindo nossos objetivos estratégicos", conta o diretor de RH, Fernando Tadeu Perez. Em 1995, a montadora procurou a Fundação Getúlio Vargas para montar um curso de visão estratégica de negócios, equivalente a uma pós-graduação. Na opinião de Perez, a capacitação dos executivos ajudou a enfrentar a crise do setor automobilístico. "Se eles não tivessem tido esse preparo, a situação poderia estar pior", diz.
A reboque da educação corporativa, surge a parceria entre empresas e universidades - uma amizade que fica cada vez mais sólida e engorda substancialmente o caixa das escolas. Não satisfeitas com a bagagem do currículo tradicional, as organizações estão se unindo com as escolas e adaptando os programas às suas necessidades. Apostam nos cursos fechados, "in company".
Feitos a quatro mãos, sob medida para cada organização, esses cursos aproveitam o know-how acadêmico e o aproximam da rotina corporativa. "A relação com o mundo acadêmico é importante, pois as universidades têm a bagagem pedagógica e de pesquisa, que uma empresa não consegue dar em um treinamento", diz a superintendente de treinamento e comunicação da Credicard, Eliana Frade.
O funcionário agradece, mas a empresa também encontra nesse tipo de programa uma série de vantagens. Algumas escolas, como o lbmec, fazem pacotes com custos até 50% menores para cursos "in company". Além disso, há o benefício de se poder discutir abertamente os problemas da empresa - os "business games" e projetos são montados em cima da realidade da corporação -- e melhorar o convívio entre os funcionários. Sem falar, ainda, nas perigosas relações que brotam em um curso normal e, por vezes, acabam levando o funcionário para outra companhia.


Cursos com foco no negócio substituem o treinamento em áreas específicas.

A estrutura e a metodologia de um curso "in company" são diferentes das de um curso normal. "O ensino tradicional não se ajusta à necessidade empresarial", diz o vice-coordenador de educação continuada da Fundação Getúlio Vargas, Paulo Sabbag. "As aulas não ficam apenas em grandes temas, como marketing. As empresas estão mais interessadas em discutir desafios e tendências", explica.
Os programas oferecidos pelas escolas variam entre 40 horas e 800 horas. O horário é adaptado à disponibilidade do executivo e da flexibilidade da empresa, que chega a abrir mão do funcionário uma vez por semana ou uma vez a cada quinze dias por até um ano. Em contrapartida, quando o curso não é noturno, o profissional deixa de ter o sábado livre para se dedicar aos estudos.
"E importante considerar os dois lados da moeda", afirma o gerente de desenvolvimento organizacional da Ericsson, Ricardo Cambraia. "Não é bom abrir mão do funcionário, mas ao mesmo tempo, o desenvolvimento é fundamental para a empresa que quer ser competitiva", completa. "O curso precisa ser flexível para se adaptar ao ritmo profissional da empresa", diz Gracioso, da ESPM. As instituições levam entre um e seis meses para elaborar o programa, o que exige um conhecimento profundo das estratégias da empresa.
Para montar um programa para os gerentes da Ericsson, a ESPM teve que mergulhar na realidade da empresa e do mercado de telecomunicações, projeto que consumiu quase seis meses. O objetivo era preparar os executivos para a mudança no perfil do cliente após as privatizações. "Antes era só tirar pedido. Precisávamos aprimorar e voltar o foco para o novo cliente", afirma Cambraia, do departamento de RH. "Eles mudaram sua forma de pensar e reagir aos problemas", conta.
Para colocar os seus executivos em sintonia com o que há no mercado e também com a realidade da empresa, a Natura desenhou em conjunto com a FGV um programa de formação para os seus executivos. Os professores ministram aulas sobre logística, finanças e marketing, por exemplo, e em seguida o executivo da Natura responsável por aquela área complementa cada assunto. "Ele avalia os conceitos e mostra o que a empresa está fazendo", explica o diretor de RH da Natura, Fernando Porchat.
Há casos de empresas, como a Promon, que buscam parceria com universidades estrangeiras. A empresa fez um convênio com a Universidade George Washington, para oferecer aos seus executivos um curso de gerenciamento de empreendimentos. "A negociação e a avaliação de risco são competências prioritárias hoje", diz a diretora de administração e RH, Celeste Siqueira.

 

 
UM NEGÓCIO BEM RENTÁVEL
Os cursos "in company" tomaram-se um negócio rentável para as universidades e escolas de negócios. A FGV foi a primeira a promover cursos fechados. Apenas quatro anos após a inauguração da Fundação Getúlio Vargas, em 1958, a área de educação continuada já oferecia programas para empresas. A demanda por esse tipo de curso aumentou substancialmente nos últimos 10 anos. 
No início da década, os cursos fechados não chegavam a representar 5% do faturamento do GV-PEC (programa de educação continuada). Segundo o vice-coordenador de educação continuada, Paulo Sabbag, hoje, os cursos "in company" são responsáveis por 50% da receita. "No ano passado, atendemos mais de cem empresas", diz. Além de os cursos migrarem para um enfoque mais estratégico, o perfil das empresas também mudou. De acordo com Sabbag, em 1994, 50% das empresas eram estatais. No ano passado, a iniciativa privada foi responsável por 80% dos cursos realizados. 
Na Fundação Instituto de Administração, da USP, que começou a oferecer cursos para empresas em 1972, essa modalidade é responsável por 70% do faturamento. "No início, as companhias queriam cursos de curta duração em habilidades específicas, como finanças ou marketing", diz o diretor da Fundação James Wright, "Hoje, além desses cursos, a maior demanda está concentrada em programas de formação de gerentes, que duram até um ano". 


Na FGV, cursos "in company" representam 50% da receita. Na FlA, da USP, chegam a 70%. 

Na Fundação Vanzolini, ligada à Escola Politécnica, e no lbmec Business School, esse valor chega a 30%. "Crescemos muito na onda do ISO 9000", diz o diretor da Fundação Vanzolini, Pedro Luiz de Oliveira. Quem começou há menos tempo, como a Escola Superior de Propaganda e Marketing e a Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas), que usou a tradição da publicação de índices para entrar na área, já obtêm 10% da receita com cursos fechados. 
A Business School São Paulo, por exemplo, acaba de entrar nesse segmento com o curso de "key accounts management", baseado no relacionamento entre fornecedores e clientes. "Percebemos que a demanda era grande, e não podíamos ficar fora", diz o vice-reitor da escola, Amilton Villela. 
A dúvida, no momento, é se, com a crise, as empresas continuarão apostando nesse tipo de curso. "Agora mais do que nunca o diferencial competitivo de uma empresa são as pessoas e elas não podem deixar de ser estimuladas ", diz o diretor de RH da Siemens, Carlos Fernando Damberg. Na avaliação da diretora do lbmec Business School, Elysabeth Guedes, a crise não deve diminuir a procura por cursos fechados. "Nesse momento, o conhecimento técnico é mais importante do que nunca", afirma. "As empresas não abandonaram seus projetos. Sentimos um aumento da demanda."
 (D D.)