GAZETA MERCANTIL - SEGUNDA FEIRA, 15 DE MARÇO DE 1999

CIOs renovam as gerências de informática
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Mais do que conhecer tudo sobre computação, profissionais devem ter facilidade de relacionamento e entender a linguagem do mundo dos negócios

Patrícia Campos Mello, de São Paulo
Procura-se um "expert" em informática bem extrovertido para ocupar o posto de Chief Information Officer (CIO). Pré-requisitos: ser um fera em computação, mas com muito jogo de cintura, bom relacionamento pessoal e conhecimento de negócios. O salário chega a R$ 300 mil por ano.
Longe de ser mais uma sigla nos altos escalões das empresas, o CIO tomou-se um dos executivos com maior demanda no mercado - e um dos mais difíceis de encontrar. "Nos Estados Unidos, os ClOs já são os executivos mais cobiçados", diz Hobson Brown, presidente mundial da recrutadora Russell Reynolds. No Brasil cerca de 25% das grandes companhias já têm seu CIO. E a demanda está crescendo.
Perto do CIO, o tradicional diretor de informática é um homem de Cro-Magnon. Os ClOs são responsáveis por todos os aspectos de TI dentro de uma empresa. Mas estão a anos-luz daquele velho técnico de CPD, mergulhado em hardware e software e incapaz de se comunicar com os executivos leigos.
"O enfoque do gerente de informática era automatizar as rotinas burocráticas e minimizar os custos", diz Antônio Carlos M. Mattos, professor de informática e matemática financeira da Fundação Getúlio Vargas (FGV). "Ele sempre justificava investimentos em tecnologia falando em gastar menos, ter mais eficiência no uso do computador e economizar de memória, transformando a conversa com os executivos em diálogo de surdos", diz Mattos.
Já o CIO quer fazer com que os sistemas sejam utilizados para aumentar a competitividade e a lucratividade da empresa. Ele é um "expert" em informática que fala a língua dos negócios e consegue visualizar o custo-benefício das inovações tecnológicas.
"Eu funciono como um embaixador da tecnologia", diz Antônio José Rocha de Almeida, 39 anos, CIO da Klabin. Mesmo com um currículo acadêmico impressionante - engenheiro aeronáutico pelo Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), com MBA na Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA-USP) e pós-graduação na Universidade de Michigan e em Ciência da Computação na USP - ele condena a antiga postura "hermética" dos diretores de informática. "O 'nerd' está morto, ele nunca chegará ao topo. O CIO precisa de muita habilidade para lidar e se comunicar com pessoas".


Com salários de R$300 mil anuais, são os executivos mais procurados nos EUA.

Parte de seu trabalho é derrubar barreiras em relação à tecnologia dentro da Klabin. "Dizer que informática é para jovem é bobagem", pontua. Prova disso é que vários coordenadores da implantação do sistema de gestão SAP, que envolve 600 pessoas na empresa, têm mais de 50 anos. "Eles começaram a lidar com isso há sete meses e estão se dando muito bem", diz Almeida.
Tornar a tecnologia mais acessível, retirando-a do mito de coisa só para iniciados, é outra missão desse CIO. O novo sistema de manufatura industrial da Klabin, por exemplo, está sendo projetado pelo ex-gerente de manufatura industrial, apenas com apoio de técnicos. "Ele é quem está fazendo, e não apenas explicando para os técnicos o que quer", diz Almeida.
Para incorporar esse perfil de homem de negócios "expert" em tecnologia, Almeida se distancia do estereótipo de viciado em informática. "Em casa, procuro não mexer com computador. Afinal, existem muitas outras coisas na vida", conta. Entre elas, mergulhar em Angra dos Reis, correr e às vezes se aventurar em boates.
Não é nada fácil encontrar um executivo com perfil de CIO. "Normalmente, tínhamos dois pedidos para contratação de CIO por ano. Nos últimos dois anos, houve um grande crescimento, foram dez posições", diz Carlos Alberto Diz, sócio-diretor da Spencer Stuart. Segundo ele, existe muita procura principalmente na área de telecomunicações. "Todas as privatizadas precisam reformular uma área de informática atrasada, passar de processamento de dados para otimização do atendimento ao cliente." Ele está tendo dificuldades para encontrar profissionais qualificados. "E difícil achar. Existe a velha geração Cobol/IBM que não soube se renovar, e jovens sem experiência suficiente", completa.
Segundo Mattos, da FGV, a grande reviravolta ocorreu quando os executivos começaram a questionar: estamos gastando 15% com essa tal de informática, será que é um dinheiro bem gasto? Será que, além de reduzir custos e aumentar a rapidez, a tecnologia faz com que ganhemos "market share" e competitividade? Segundo ele, o pessoal da área de informática, normalmente oriundo de escolas de engenharia, física ou matemática, não conseguia entender direito o significado empresarial de retomo de investimento. Isso obrigou os diretores de informática a se focarem no negócio principal da empresa, em vez de serem apenas técnicos de alta categoria.
Tom Peters, guru americano de negócios, afirma que "reduzir custos" é uma das principais missões do CIO. "Você acabou de investir em 800 pessoas e milhões de dólares na instalação de um sistema. Quando ele começa a funcionar, está ultrapassado em relação a um sistema instalado por seu concorrente. O que você faz?" Afinal, monitorar a concorrência, garantindo que a empresa não está ficando para trás, é uma das grandes atribuições do CIO. Mas, na medida em que respeite o orçamento.


CIO não diz que o que vai fazer em termos técnicos, mas quais serão os resultados

"Isso não dá para fazer porque o computador não permite" ou "preciso disso porque a máquina exige" são frases banidas do manual do CIO.
"O CIO não explica como vai fazer, com todas as especificações técnicas, ele diz qual será o resultado", afirma Diz, da Spencer Stuart. "Esse profissional deve estar pronto para responder a perguntas do tipo: como a tecnologia pode nos ajudar a atingir tal meta?", diz o consultor José Roberto Saviani, autor do livro "O analista de negócios e da informação". "Não dá mais para ficar 30 anos fechado numa baia com um terminal, alheio aos negócios".
O título ainda não é padrão no Brasil. Muitos ClOs estão em cargos de vice-presidente de informática ou diretor de tecnologia de informação. O que os diferencia do anacrônico gerente de informática tradicional é a atuação. São os executivos capazes de alinhar a tecnologia com a estratégia da companhia. No dia-a-dia, continuam responsáveis pela compra de tecnologias e implementações, mas a missão vai mais além. Isto é, tornar a tecnologia um valor adicionado ao produto. "Eles têm uma visão mais macro, entendem como a tecnologia vai alavancar o negócio", diz Robert Wong, presidente da KornFerry, multinacional de recrutamento de executivos.
Para convencer os diretores "leigos" da importância do investimento em Tecnologia da Informação, o primeiro passo desse profissional foi abandonar de vez o jargão. "Não falo em volume de dados, terabytes ou megabytes, falo em quanto o sistema vai aumentar a produção", diz Luís Puntel, 40 anos, CIO da Embraer. "A comunicação clara é muito importante para que a tecnologia deixe de ser vista apenas como fonte de despesas". Antes de assumir na Embraer, este engenheiro mecânico com MBA foi CIO da Electronic Data Systems (EDS), uma das líderes mundiais em serviços de tecnologia da informação. Agora, seu desafio é colocar a tecnologia a serviço do cliente na indústria aeronáutica. Puntel está estabelecendo a conexão entre todos os aeroportos do mundo e todas as instalações da Embraer, de forma a agilizar os serviços de reposição de peças, renovação de frotas, contato com fornecedores e clientes. "Sem a tecnologia, seria impossível viabilizar esse negócio", diz. "Em pouco tempo, teremos uma pessoa de São José dos Campos, nossa sede, conectada a qualquer aeroporto do mundo, ou às instalações da empresa na Austrália, EUA e França".
Abaixo o jargão
Tradicional gerente de informática CIO
Deu blue screen no Windows O programa Windows entrou em pane
Arquitetura 3-Tier  Parte do programa rodando em computadores diferentes
Hub Benjamim
Deu um bug no software O programa de computador está com defeito

Sopa de letras para executivos

Afinal, o que querem dizer todas essas siglas?
Chief Executive Officer (CEO) - Chefe de todos os executivos, que costuma ser também membro ou presidente do conselho. Outros títulos comuns: diretor-superintendente, presidente, diretor-presidente, diretor-geral.
Chief Operating Officer (COO) - Executivo que toca o dia-a-dia da empresa, encarregado da área operacional. Costuma supervisionar vendas, manufatura, marketing, logística e outras áreas.
Chief Financial Officer (CFO) - Executivo financeiro e administrativo, encarrega-se da tesouraria, controladoria, auditoria interna, contabilidade.
Chief Administration Officer (CAO) - Quando o financeiro não tem funções administrativas, o CAO assume a parte fiscal, legal e de consultoria.
Chief Technology Officer (CTO) - Tem uma função mais restrita que o Chief Information Officer, cuidando de aspectos tecnológicos ligados à manufatura, telecomunicações, informática e equipamentos.
Chief Human Resources Officer (CHRO) - Primeiro homem a responder pela área de recursos humanos.
Chief Marketing Officer (CMO) - Supervisiona toda a área de marketing e vendas.
Chief Learning Officer (CLO) ou Chief Knowledge Officer (CKO) - Cargo ainda novo, existente em empresas como a General Electric e Coca-Cola. Trata-se do executivo que administra o capital intelectual da empresa, composto pelo "know-how" dos funcionários. (P. C. M. )