GAZETA MERCANTIL - SEXTA-FEIRA, 17, E FIM DE SEMANA, 18 E 19 DE ABRIL DE 1998	    Página C-6

Fluxo de caixa é a prioridade do investidor

Acionistas institucionais querem informações financeiras e estratégicas mais detalhadas, diz pesquisa da Shelley Taylor & Associates, dos EUA.

The Economist
Eis um simples teste para determinar se você tem o que é necessário para administrar uma grande corporação. Suponha que alguém lhe pergunte se o preço das ações de sua empresa é muito alto, muito baixo ou apenas correto. O que você diria? Se você pensa que a resposta depende das circunstâncias, você claramente não tem o que é preciso para o cargo.
Mesmo com toda a atenção dada a seus papéis como gênio estratégico, criador de idéias ou o que quer que seja, a maioria dos principais executivos compreende que eles são, acima de tudo, vendedores, tentando convencer os mercados financeiros de que as ações de sua empresa representam uma boa aquisição.
Mas, enquanto os vendedores comuns aprendem que o cliente está sempre certo, o principal executivo típico age como se o investidor estivesse sempre errado. Ele se queixa sem parar da concentração do mercado no curto prazo e nunca encontrou um analista que aprecie totalmente o potencial de sua empresa.
É difícil criticar administradores por agirem como firmes advogados de suas empresas. Os acionistas em potencial podem preferir mais honestidade, mas os atuais podem não gostar de um chefe que sempre fala de forma a desvalorizar as ações em seu poder. Além disto, um preço mais alto para as ações facilita o financiamento dos investimentos de uma empresa.
Entretanto, agradar os investidores está ficando mais complicado. Além das medidas financeiras normais, os investidores também querem que os administradores sejam específicos sobre as perspectivas futuras de suas empresas. Eles ainda querem mais informações não-financeiras, para ajudá-los a "completar o quadro".
Alguns interessados também querem que as empresas forneçam mais detalhes sobre suas práticas de "administração empresarial", tais como procedimentos do conselho administrativo e regras éticas. Como as empresas deveriam responder a essas variadas demandas por informação?
A resposta depende em grande parte do tipo de informação que é importante para os mercados financeiros. Isto fica claro em recente estudo da Shelley Taylor & Associates, uma consultoria sediada em Palo Alto, na Califórnia.
O estudo, intitulado "The Care and Feeding of Institutional Investors" (O tratamento e o fornecimento de informações aos investidores institucionais), examina as demandas dos maiores investidores institucionais dos Estados Unidos, Grã-Bretanha e Europa continental e compara os dados com o que as empresas realmente revelam. Ele descobriu que os investidores priorizam um item acima de todos: o fluxo de caixa descontado. É a quantia de dinheiro que uma empresa paga aos investidores depois de suprir suas necessidades de investimento. Os economistas há muito tempo argumentam que isso determina o valor de longo prazo de uma ação.
Contudo, a maioria dos administradores tem-se recusado a acreditar nisto. Mais importante, muitos administradores subestimam os investidores e a habilidade que possam ter para avaliar corretamente um negócio quando estão bem informados.
Isto desencorajou as empresas a serem francas com os acionistas. Embora o cálculo do próprio fluxo de caixa seja bastante fácil (e exigido por muitos padrões de contabilidade), a pesquisa da Shelley Taylor sugere que a informação que ajuda os investidores a aferir futuros fluxos de caixa fica muito bem guardada.
Os investidores querem informações mais detalhadas sobre segmentos específicos de negócios, um relatório sobre como o resultado das empresas se compara com as próprias medidas internas de desempenho e, certamente, honestidade no caso de uma má notícia. Os europeus preocupam-se com a liderança de mercado, enquanto os investidores dos Estados Unidos estão interessados em estratégias.
O estudo também destrói alguns mitos, especialmente aqueles relativos a regras de administração empresarial. Dos 19 tipos de informação sobre administração considerados, apenas um - o salário do executivo - classificava-se entre as 20 principais questões consideradas importantes pelos investidores.
Eles estão principalmente preocupados com como o salário se relaciona com o desempenho, e não com o seu nível. Isto não é surpreendente, uma vez que os incentivos do chefe têm um grande efeito sobre o desempenho futuro. Administradores de muitos fundos de pensão do setor público, que fazem muito barulho a respeito das regras de administração, parecem comportar-se mais como políticos que maximizam os votos e não como administradores de recursos que maximizam os lucros.
Saber as prioridades do investidor é uma coisa. Saber como informá-los é outra. Para começar, os administradores frequentemente enfrentam objetivos conflitantes. Informação detalhada sobre estratégia e segmentos de negócios, por exemplo, podem ajudar os concorrentes se muitos detalhes forem revelados, prejudicando os acionistas no processo.
Isto há muito foi citado como uma vantagem do capitalismo de estilo japonês ou alemão, onde os bancos que controlam muitas ações são os únicos acionistas que conseguem informação detalhada.
Uma forma de as empresas e de os acionistas (em países de ambiente mais favorável ao acionista) ultrapassarem isso é manter reuniões privadas com grupos de investidores institucionais. Nos Estados Unidos e na Inglaterra tais encontros agora são comuns. Desde que não haja abuso de informação, as autoridades reguladoras estão preparadas para permitir esse tipo de troca. Nos EUA, o Congresso também tornou mais difícil processar uma empresa apenas porque alguma coisa inesperada acontece. O que deve facilitar aos administradores conversarem a respeito de seus planos.
Os conflitos mais importantes, entretanto, são culpa dos próprios administradores. Tornar público seus objetivos os expõe a um exame mais aprofundado, e apesar de toda conversa sobre valor acionário e prestação de contas, os executivos principais não gostam disto.
É por isso que muitas pessoas advogam uma abertura legal maior, que forçaria as empresas a revelar mais informações. Entretanto, embora melhores padrões ajudem, não são nenhuma panacéia. São frequentemente fáceis de manipular e as prioridades para o investidor diferem entre setores, tomando mais difícil que um único sistema de contabilidade possa espelhá-las efetivamente.
A concorrência é um incentivo maior para fornecer informações. Na medida em que as empresas desenvolvem melhores técnicas para medir ativos intangíveis, como P&D ou capital humano, as empresas que têm menos a "esconder" começarão a empregá-las, sem esperar pela ordem das autoridades reguladoras.
A Skandia, uma seguradora sueca, já faz mensuração de capital intelectual. E várias consultorias, como a Price Waterhouse, começaram a procurar estabelecer mensurações mais suaves para complementar os dispositivos mais severos - como o "Valor Agregado Econômico" (VAE) de Stern Stewart's - que já são amplamente utilizados.
A concorrência tem muito mais chances de produzir medidas úteis. Se elas se comprovarem plausíveis, as empresas que as adotarem terão suas ações valorizadas. As que têm algo a esconder podem logo vir a descobrir que o teste para se saber quem é bom administrador ficou muito mais fácil.