GAZETA MERCANTIL - SEGUNDA-FEIRA, 20 E TERÇA-FEIRA 21 DE ABRIL DE 1998 Página C-3
Indústria do chip investe em produtos de baixo custo
A líder Intel muda sua estratégia e lança o Celeron, para mercado doméstico e de pequenas empresas. Em resposta, as concorrentes AMD e Cyrix apresentam novos processadores.
Rose Crespo, de São Paulo
As investidas dos fabricantes de microprocessadores para abalar o império da lntel - cuja participação no mercado mundial é superior a 70%, de acordo com dados da lnternational Data Corporation (IDC) - fizeram com que a indústria mudasse de estratégia.
O mercado mundial deverá movimentar mais de US$ 67 bilhões neste ano, com a comercialização de placas-mãe (na qual o chip entra como um dos componentes) dos microcomputadores, segundo a IDC.
Fazendo uma analogia com o corpo humano, a placa-mãe é o coração do PC e o chip, o cérebro da máquina. Ambos desempenham papel fundamental no desempenho do micro.
Apostando na segmentação do mercado, a lntel lançou esta semana a família de processadores Celeron para PCs básicos. Foram lançados também duas versões da família Pentium II de 350 e 400 megahertz (MHz).
Comercialização de placas-mãe movimentará US$ 67 bilhões no mundo até o final do ano.
No mesmo dia, e em resposta ao ataque da líder mundial, a concorrente Advanced Micro Devices (AMD) reduziu os preços do chip K6, equiparando-os aos patamares do Celeron. O pacote de mil unidades é vendido por cerca de US$ 155 (preço FOB). Em seguida, anunciou a chegada do chip AMD-K6 de 300 MHz e a versão de 266 MHz, ambas produzidas na fábrica do Texas (Estados Unidos).
A Cyrix, que é uma subsidiária da National Semiconductors, apresentou o novo Processador M II 300, destinado ao segmento de computadores abaixo de US$ 1 mil.
"A nova geração Celeron deverá substituir o Pentium MMX e está baseada na tecnologia 0.25 mícron", diz Luís Guisasola, diretor de marketing da lntel para a América Latina.
Após comprar a Cyrix por US$ 550 milhões, a National Semiconductors - um dos principais fabricantes mundiais de microprocessadores nos mercados de comunicação, sistemas pessoais e eletrônica de consumo - aposta na alavancagem das vendas de microcomputadores com preços inferiores a US$ 1 mil.
"Esse segmento já representa 40% das vendas mundiais de PCs, com a comercialização de cerca de 80 milhões de máquinas", revela John Phelps, vice-presidente da National para a América do Sul.
Para abastecer esse mercado, a Cyrix colocou no mercado, esta semana, o M II 300, que estará disponível a partir de maio com preço de US$ 180 (preço de comercialização nos Estados Unidos). "O produto garante o desempenho de equipamentos 'high end' com preços inferiores. Comparando-se com o Celeron, a performance é superior", garante Phelps.
Segundo a National, a demanda por processadores de alto desempenho e baixo custo deverá crescer em ritmo acelerado nos próximos anos. O executivo acredita que a comercialização de equipamentos no mundo deverá saltar de 80 milhões para 800 milhões de máquinas/ano. O mesmo ocorrerá no mercado brasileiro.
Após investir mais de US$ 1 bilhão na construção de uma fábrica em Boston (Estados Unidos), a National terá capacidade para fornecer 30 milhões de chips/ano. "Com a redução dos custos, a idéia também é popularizar o uso de PCs", diz Phelps.
Além desta unidade industrial, a National possui mais três: no Texas e Califórnia, nos Estados Unidos, e Escócia, na Europa.
Na indústria de chips, o avanço tecnológico é mais rápido que o próprio mercado. E o usuário paga mais caro para ter acesso às novas gerações que são desenvolvidas. "O nosso objetivo é quebrar este paradigma. O produto de última geração não precisa ser mais caro", diz Phelps.
Processadores com preços (em média) 25% mais baratos que os da lntel: esta tem sido a bandeira levantada pela AMD, que hoje detém 15% do mercado latino-americano e espera chegar a 20% até o final de 1998.
Sair na frente com o lançamento de produtos de última geração é outro caminho que a AMD pretende trilhar. "O chip K6 chegou ao mercado um mês na frente do Pentium II. Para maio, esperamos oferecer uma geração K6 3D, com instruções que melhorarão a qualidade das imagens. O produto similar da lntel só será lançado no final do ano", diz Celso Previdelli, gerente geral para a América do Sul da AMD.
A concorrência tem questionado a capacidade de processamento dos processadores Celeron. Segundo Previdelli, o desenvolvimento desta nova família sem cache secundário (banco de memória que contribui para aumentar consideravelmente o desempenho total da máquina) foi uma solução de emergência encontrada pela concorrente lntel.
Testes de benchmark realizados por revistas especializadas norte-americanas mostram que, dependendo das aplicações que rodavam no PC, o desempenho do Celeron foi inferior ao do M II 300, da Cyrix, e conseguiu pontuação inferior em relação ao K6 233 MHz, em testes realizados com máquinas de igual configuração.
Para rodar determinados aplicativos, o mesmo artigo mostrou que o Celeron mal conseguiu atingir a performance do Pentium MMX 200.
"Faltou humildade porque a lntel poderia admitir que mudou os planos e manter o Pentium MMX", diz Previdelli, da AMD.
O resultado dos testes é questionado pela lntel. "Não sabemos como o estudo foi realizado e, por desconhecermos as condições, podemos dizer que eles não são uma boa referência. A companhia desenvolveu benchmark e o desempenho do Celeron foi 7% superior ao Pentium MMX 233 MHz com cache de 512 na placa-mãe", afirma Milton lsidro, gerente de tecnologia da lntel.
Fabricantes prevêem aumento da demanda por processadores mais baratos.
"O objetivo é oferecer os melhores produtos para cada segmento do setor de informática", revela Paul Otellini, vice-presidente executivo da lntel Architecture Business Group.
A batalha não se restringe ao mercado doméstico ou de pequenas ou médias empresas. Os lançamentos incluem produtos para abastecer também o mercado corporativo.
Além do Celeron, a lntel apresentou novas versões para o Pentium II: 350 e 400 MHz, voltados para sistemas operacionais mais avançados e browsers 3-D. Para os usuários domésticos mais exigentes, os chips podem oferecer novas tecnologias como os DVD "player" (videodisco digital) e gráficos AGP.
A nova geração é produzida com a tecnologia de 0.25 mícron, que permite a produção em grandes volumes processadores. Até o final deste ano, a lntel produzirá todos seus microprocessadores por esse método.
Os processadores Pentium II de 350 e 400 MHz incluem o conjunto de novas tecnologias baseadas no novo barramento de sistema P6, de 100 MHz, garantindo a comunicação mais rápida entre o Processador e outras partes do sistema computacional.
O Processador Pentium II, com 7,5 milhões de transistores, é oferecido hoje com as velocidades de 400, 350, 333, 300 e 266 MHz. O pacote de mil unidades do chip de 350 MHz custa US$ 621 e o de 400 MHz, US$ 824.
Os principais fabricantes de micros já oferecem os processadores Pentium II de 350 e de 400 MHz para PCs, servidores e estações de trabalho.
A AMD tem como estratégia oferecer uma alternativa real para o Pentium II. Os chips da empresa também utilizam a tecnologia de O.25 mícron e estão sendo usados por fabricantes internacionais de PC, como Compaq, IBM, Acer e Digital. O lote de mil unidades é vendido a US$ 246 nos Estados Unidos. E a Cyrix, em breve, deverá lançar versões M II 333 e 350 MHz.
Em meados do ano passado, a tecnologia MMX ("Multimedia Extension") foi anunciada pela indústria de chip como uma resposta ao crescimento da computação baseada em novas mídias e a demanda por desempenho para aplicações multimídia de alta qualidade.
Alto desempenho no processamento simultâneo de certos dados tipicamente encontrados em softwares multimídia e gráficos, com baixo consumo de potência, eram as vantagens do padrão MMX criado pela lntel.
Baseado na tecnologia de processo de O.35 mícron e encapsulado com 4,5 milhões de transistores, o microprocessador Pentium MMX apresentou melhorias na arquitetura.
Mal o mercado descobriu o MMX, foi apresentada uma nova família de chips, batizada de Pentium II e anunciada anteriormente com o nome código "Klamath". Descendente do PentiumPro, a sexta geração foi desenhada para atender necessidades de usuários corporativos.
Já o processador Pentium II possui 7,5 milhões de transistores e está disponível nas velocidades de 400, 350, 333, 300, 266 e 233 MHz.
O K6, fabricado pela AMD, possui 8,8 milhões de transistores e é produzido com a tecnologia de processo "five-layer-metal silicon".