ADMINISTRADORES PÚBLICOS NAMORAM AS EMPRESAS
GAZETA MERCANTIL - QUARTA-FEIRA, 22 DE ABRIL DE 1998 Página C-8
Administradores públicos namoram as empresas
Estudantes aprendem a gerir estatais, mas preferem ir para as empresas, onde obtêm prestígio e melhores salários.
Daniela D'Ambrosio, de São Paulo
Aos 33 anos, comandando a área de corporate finance do Banco Pactual, Paulo Bilyk, jamais trocaria o dinamismo, a importância estratégica da função e o salário pela estabilidade de um cargo público. Formado em administração pública pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), Bilyk é um dos inúmeros profissionais que atuam no setor privado, embora tenha estudado para ser administrador público.
Em dezembro do ano passado, dos 45 alunos graduados em administração pública pela FGV 94% foram para o setor privado. Destes, 41 % foram contratados pelo setor bancário e 28% por indústrias. "O idealismo e a vontade de contribuir para melhorar o País esbarram nos baixos salários e na falta de credibilidade do funcionalismo", afirma Roberto Amatuzi, "associated" de corporate finance do Banco Goldman Sachs, formado em administração pública desde 1987.
A rubrica "pública", na parte inferior do diploma de administração concedido pela FGV, sempre foi sinônimo de boa colocação no vestibular. Tinha pouca ou nenhuma relação com a vontade de seguir carreira em um órgão do governo. Até 1995, o curso de administração pública era subsidiado pelo governo paulista e, por esse motivo, concentrava os primeiros 50 colocados entre os 2,5 mil inscritos, em média, no exame vestibular. "Os alunos desse curso sempre foram os mais procurados pelas empresas privadas", afirma o vice-coordenador dos cursos de graduação da FGV, professor Antônio Mendes de Almeida Júnior.
Embora criado em parceria com o governo para formar mão-de-obra especializada, o curso de administração pública acabava sendo o caminho mais barato para quem almejava um diploma de uma das escolas de administração mais conceituadas do País. "Não tinha sentido o governo pagar o curso para os 50 candidatos que entram a cada ano, se não aproveitava os profissionais", admite o professor. Sem o principal atrativo, o curso passou, então, a ser a segunda opção dos vestibulandos. Enquanto era gratuito, era escolhido, em média, por 20% dos candidatos. No último vestibular, apenas 4,5% do total de inscritos o escolheu como primeira opção.
Além do fim do subsídio, o curso de administração pública da FGV passou por uma completa reforma curricular. Até 1995, as diferenças entre as matérias ministradas em administração pública e de empresas eram menores. Agora, apesar dos dois primeiros anos básicos, o aluno tem mais opções de disciplinas optativas na área pública, como privatização e concessões de infra-estrutura e competitividade operacional em produtos e serviços. A formação em ciências sociais e política também é mais completa.
"Chegamos à conclusão que a concepção de administração pública é muito mais ampla que a atuação no governo e nas estatais", explica Almeida Júnior. A área na qual os professores mais apostam é o chamado terceiro setor, que inclui as fundações sem fins lucrativos, as organizações não governamentais (ONGs) e as organizações sociais (organismos privados com fins públicos), instituídas pelo governo em outubro do ano passado. Nos Estados Unidos, segundo o professor, de cada 10 trabalhadores um está empregado no terceiro setor. "Essas instituições movimentam milhões e dificilmente têm uma administração profissional", explica.
Outro mercado para os profissionais formados em administração pública são as estatais privatizadas. Segundo o professor Almeida Júnior, essas empresas requerem uma administração específica, pois, embora privadas, oferecem serviços públicos. "É diferente de vender margarina ou automóvel. O profissional precisa ter uma visão mais ampla e estratégica do processo administrativo."
Com relação aos cargos tradicionais oferecidos pelo governo, alunos e professores são unânimes em afirmar que a atratividade dessas ocupações será maior apenas em médio e longo prazos. Professor de marketing e ex-aluno de administração de empresas da FGV, o atual secretário da Administração do Estado de São Paulo, Fernando Carmona, acredita que, com a reforma administrativa, o Estado ficará mais enxuto e, na mesma proporção em que irá oferecer melhores condições, será mais exigente em relação à qualificação dos seus funcionários.
Carmona é um exemplo de administrador de empresas que atua no setor público, assim como outros ex-alunos da fundação que hoje atuam na esfera pública, entre eles o secretário da Fazenda do Estado de São Paulo, Yoshiaki Nakano, o senador Eduardo Suplicy e o governador do Ceará, Tasso Jereissati. "Há muitos profissionais que se realizam com a área pública", afirma o secretário. A relação com a política, no entanto, não é bem vista pelos alunos e ex-alunos de administração pública. "A área pública explora menos o lado profissional e técnico e, muitas vezes, se mistura com a política, onde eu jamais quis atuar", afirma o ex-aluno Roberto Amatuzi, do Goldman Sachs.
Entre as opções de carreira que ainda atraem os profissionais graduados em administração estão, no âmbito estadual, o agente fiscal de renda - salário inicial de R$ 3,9 mil mais remuneração variável - e, principalmente, auditor da Receita Federal, um cargo federal cujo salário inicial é de R$ 4,5 mil. As últimas 600 vagas para auditor da Receita foram preenchidas em 1995, concurso disputado por 80.643 profissionais. No entanto, uma portaria assinada no dia 24 de março deste ano pelo ministro de Administração Federal e Reforma do Estado, Bresser Pereira, autoriza a realização de concursos para profissionais de nível superior nos próximos dois anos.
Para o cargo de auditor da Receita serão abertas 600 vagas este ano, 550 em 1999 e 500 no ano 2000. Segundo Carmona, até o próximo ano, também devem ser aprovadas as modificações na legislação para a abertura de concurso para o cargo de executivo público, profissional que assessora a administração de secretarias de Estado.
Em dezembro deste ano forma-se a primeira turma de administração pública depois da reforma curricular. Apesar das novas perspectivas da carreira e mais opções de concursos públicos, a maioria dos alunos ainda escolherá o setor privado. "Além dos salários e da associação pejorativa que se faz com a imagem do funcionário público, as empresas vêm todos os meses aqui nos buscar", afirma o aluno do sétimo semestre, Rafael Bicelli Ferreira.