A ELETRÔNICA INVESTE EM INFORMATIZAÇÃO
GAZETA MERCANTIL - QUINTA-FEIRA, 23 DE ABRIL DE 1998		Página C-1

A eletrônica investe em informatização

As dificuldades enfrentadas pelos fabricantes do setor nos últimos meses e o temor em relação aos problemas previstos com o "bug" do milênio têm levado as empresas a buscar a eficiência prometida pela tecnologia da informática e pelos programas de gestão.

Anna Lúcia França, de São Paulo
As dificuldades enfrentadas pelo setor de eletroeletrônico nos últimos doze meses e a proximidade da virada do século, com o temido "bug do milênio", têm levado algumas empresas a repensar seus sistemas de informação. Em busca de maior eficiência para manter-se competitivas no mercado globalizado, muitas delas estão investindo pesado na área de tecnologia. Os maiores destaques entre os investimentos em andamento são a Multibrás, maior fabricante de eletrodomésticos com as marcas Brastemp e Consul, e a Sharp do Brasil.
Braço do grupo Machline na área de eletroeletrônica, a Sharp iniciará a partir de maio uma reformulação profunda e completa em seus sistemas. O projeto, com prazo de dois anos para implantação, deve absorver aplicação da ordem de R$ 15 milhões e inclui a reversão do processo de terceirização de sistemas, implantada há dois anos na companhia.
Com o programa de Tecnologia da Informação (TI) completo, a Sharp espera reduzir em até 30% suas despesas totais. "Mas, mais do que reduzir o gasto com papéis e outros serviços, o projeto visa melhorar todo o ciclo de produção, desde o melhor gerenciamento dos estoques até ganhos financeiros", explica Luis Roberto Pogetti, diretor financeiro e de relações com o mercado da Sharp.
Segundo o executivo, há seis meses a empresa começou a elaborar seu planejamento estratégico para Tecnologia da Informação (TI). Para isso, foi feito um levantamento geral para checar o estado da infra-estrutura e a necessidade de atualização de aplicativos, além da reorganização de toda a área de sistemas.

A Sharp tem plano de investir R$ 15 milhões. A concorrente Multibrás R$ 25 milhões.

Com o mapa nas mãos, a empresa conseguiu detectar os pontos falhos no processo, incluindo as dificuldades com a mudança do século. "Como temos no consórcio uma das atividades mais importantes (responsável por 26% do faturamento de R$ 771 milhões) percebemos que teríamos sérios problemas antes mesmo da virada do século e antes de nossos concorrentes", diz Pogetti.
Como todo mundo que começa uma reforma, a Sharp resolveu que, já que estava mexendo no sistema, seria interessante adotar um software de gestão para integrar toda companhia de forma harmônica. O escolhido foi o R/3 da alemã SAP.
"O planejamento estratégico apontava para a adoção de um software de gestão que garantisse competência com racionalização de custos e o SAP foi o que mais se aproximou deste objetivo", diz o diretor. Essa medida forçará a empresa a mexer em toda sua estrutura organizacional, o que implicará num reforço na área de recursos humanos para dar suporte a parte de treinamentos, que serão ministrados a pelo menos um mil dos três mil funcionários existentes atualmente na Sharp do Brasil, a primeira empresa do grupo a passar pela reestruturação, uma vez que a SID Informática deve ser a próxima.
Segundo Pogetti, o SAP, entretanto, só servirá de "pano de fundo" para o projeto, já que ele não cobre todas as necessidades da companhia. "O programa só cobre 70% das nossas necessidades. Os 30% restantes tivemos que buscar fora ou desenvolver internamente", explica Pogetti. Segundo ele, o SAP não cobria especialmente as área de venda direta e consórcio, onde a Sharp tem grande foco.
Além disso, foi preciso buscar também soluções para recursos humanos e aspectos fiscais, principalmente relativos a tributação especial da Zona Franca de Manaus. "Mas no que diz respeito a chão de fábrica, o SAP cobrirá quase 90% das necessidades", acrescenta o diretor.
O programa de TI da Sharp prevê a troca de praticamente todo o parque de computadores da empresa, para PCs Pentium MMX 200, num volume que deve superar a casa dos 300 equipamentos. Haverá também a automatização da força de venda com adoção de minicomputadores. Ao todo serão 500 "hand held" Mobilon nas mãos dos vendedores.
Cerca de 900 pontos em todo o Brasil serão interligados pela rede interna do grupo, incluindo a SID e as unidades de Manaus. Além disso, servirá de base para a preparação da entrada na lnternet e futuramente no comércio eletrônico. "Nosso projeto está em linha com os planos da Sharp Corporation nos EUA", diz Pogetti.
Os planos prevêem a migração da plataforma de mainframes para outra baseada no sistema cliente-servidor. "Hoje 70% das nossas aplicações rodam em mainframes e o objetivo é fazer o dowsizing total", acrescenta. Com isso, a empresa vai reverter a terceirização dos serviços de processamento de dados, que detinha 80% do movimento total da empresa. A meta é manter informações vitais no domínio da companhia e só repassar para terceiros o que for burocrático.
O mesmo empenho da Sharp está sendo registrado na Multibrás, líder brasileira no segmento de linha branca (geladeira, fogões, máquinas de lavar e freezers). O investimento da empresa, desde a montagem de uma rede até a implantação do software de gestão SAP é estimado em até R$ 25 milhões. "A Multibrás nunca havia feito um investimento deste porte na área de tecnologia e o objetivo é ganhar agilidade e produtividade", diz Ruy de Campos Filho, diretor de relações com o mercado da companhia.

Com o programa de tecnologia, a Sharp espera reduzir em até 30% as suas despesas totais.

O projeto, iniciado em novembro do ano passado, deve ter sua primeira fase terminada até agosto, com a implantação dos módulos de SAP para produção, financeiro, vendas, logística e programação de matéria-prima. Segundo o diretor, a segunda fase, que deve estar concluída até o primeiro trimestre de 1999, contará com a implantação de sistemas de recursos humanos e manutenção e gestão de projetos.
"O SAP é apenas uma das partes da revisão que a Multibrás está fazendo em todo sua estrutura", diz Campos Filho, acrescentando que a estratégia básica é colocar a informática como uma solução voltada para o negócio.
Para migrar dos mainframes para plataforma cliente-servidor, a Multibrás está trocando grande parte dos seus equipamentos. O downsizing e a nova arquitetura vão permitir a integração de toda a companhia através de uma rede, que vai interligar 900 pontos divididos entre as seis plantas da empresa espalhadas por todo o País. "A lntranet será abastecida de informações competitivas que serão utilizadas como ferramentas para os usuários na agilização dos negócios", explica o diretor da Multibrás.
Mesmo sem dimensionar a economia provocada pelo investimento em TI, Campos Filho diz que os ganhos mais sensíveis poderão ser sentidos pela rapidez dos processos, que antes precisavam ser repetidos em várias fases. "Com dados que serão inseridos uma única vez, várias áreas podem trabalhar em cima, sem a repetição de tarefas", explica o diretor. Mas não é todo mundo que está apostando em tecnologia. Para a Semp Toshiba, seu sistema atual, mesmo sem ser o mais moderno, contempla as necessidades da companhia, segundo informou.