GAZETA MERCANTIL - TERÇA-FEIRA, 05 DE MAIO DE 1998		Página  A-2

A estratégia é aprender

Nadir Hallgren *
O desenvolvimento de formas de organização que privilegiam a aprendizagem ainda é muito novo no universo administrativo-empresarial. As empresas em processo de aprendizagem - as "Learning Organizations" começaram a se estruturar como tal e a se multiplicar só a partir destes últimos dez anos.
Com uma literatura fortemente americana, dos "idos" de 80, com Kauffman, in "Systems One: An lntroduction to Systems Thinking" e Checkland, in "Systems Thinking, Systems Pratice", até Peter Senge, com o seu "The Fifth Discipline", de 1990, e David Garvin, in "Building a Learning Organization", o que vimos na realidade prática empresarial foi, na Europa, uma Volvo - com a fábrica de Kalmar em 1974 e a de Uddevalla em 1989 - ser pioneira desse conceito inovador, ao preparar grupos semi-autônomos que cresceriam à medida que fossem capazes de adquirir novos conhecimentos e repassá-los para a evolução do seu setor. Aconteceu que a gigante sueca veio a sofrer uma profunda crise de mercado uma vez que seu planejamento estratégico não contemplou o fato de que um processo de aprendizagem deveria ter um caráter sistêmico e levar em conta toda a organização e ainda todo o cenário mercadológico mundial, e não apenas o seu setor de produção.

O que todas as empresas mundiais buscam incansavelmente é como, onde e quando inovar.

Na vertente oriental, a prática japonesa contemplou, no processo, a interação entre o setor produtivo, as instituições de apoio e fomento e mais as instituições de intermediação como Japan Productivity Center (JPC) e Japanese Union of Scientists and Engineers (Juse), o que levou as empresas japonesas a trilhar um caminho de sucesso no aprendizado sistemático da sua própria aprendizagem, definindo novas culturas organizacionais que evoluíram por meio dos estágios:
O que buscam agora incansavelmente, todas as empresas, sejam americanas, européias ou asiáticas, é como, onde e quando inovar. E nessa busca esbarram numa realidade simplista e factual: não existe inovação sem a criatividade humana! E a criatividade humana deve ser cada vez mais estimulada sob pena de que, se essa necessidade não for satisfeita, estaremos vendo logo, logo, aumentar ainda mais a distância entre as pessoas, as empresas e os países que são desenvolvidos daqueles que ainda não o são.
Cabe lembrar que um dos pressupostos básicos para o incremento da criatividade é tirar o que envolve, desbloquear, isto é, desenvolver!
A escola, que deveria ser a instituição encarregada de providenciar o futuro e promover cidadãos aptos para empreender o desenvolvimento, não estimula características como independência, disposição para aprender a partir dos próprios erros, autoconfiança e coragem para assumir riscos, e continua a dar ênfase à reprodução e à memorização de conhecimentos já prontos que são, na maior parte das vezes, absolutamente inúteis.
Felizmente esse problema estrutural da educação não é só um problema brasileiro.
Infelizmente outros países estão muito mais rápidos na busca de soluções para o mesmo problema.
Ainda bem que tivemos e temos cientistas da educação que são admirados e seguidos por outros de igual calibre na comunidade acadêmica internacional. Lembremo-nos de Paulo Freire, criador do conceito e da metodologia da educação problematizadora - uma genialidade ímpar aliada a uma magnífica visão sistêmica da modernidade. Segundo ele, o aluno deve ser estimulado a construir seu próprio conhecimento através da resolução criativa de problemas trazidos da sociedade e aprender a levar de volta para a sociedade um conhecimento que seja aproveitável, produtivo, reciclável, auto-sustentável e futurista. Então me pergunto: se a escola não está fazendo nada disso, para que a escola? Pergunta que me foi totalmente respondida por Gilberto Dimenstein, na palestra intitulada "0 fim da Escola".
E pergunto: se a escola não, a empresa por que não?
As organizações podem não ter cérebros ou coração, mas têm sistemas cognitivos e memória e desenvolvem rotinas, ou seja, procedimentos relativamente padronizados para lidar com problemas externos e internos, assim como os indivíduos. E, assim, enquanto essas rotinas vão sendo incorporadas de maneira clara ou inconsciente na memória organizacional, elas, as organizações, aprendem e se tomam capazes de criar, adquirir e transferir conhecimentos e ainda podem modificar os seus comportamentos para refletir esses novos conhecimentos e "insights", exercitando sempre sua criatividade e produção inovadora para ela própria e para a sociedade (ou para o mercado).

Se a escola não está estimulando a construção do conhecimento, as empresas podem fazê-lo.

Vem-me agora à memória que, na década de 60, quando estudava psicologia da educação, a palavra "cliente" era muito usada nos "compêndios de pedagogia" (cujas referências datavam dos anos 30 ou 40 ... ), para falar do "aluno"!
Às vezes, o passado nos acorda para o futuro de forma assim tão sutil...
Em tempos de "global market place", em que a tecnologia avançada transforma a informação e a comunicação de uma maneira tão abrangente e inteligente, por que a educação continua "emperrada"?
Quem sabe as incipientes "learning organizations" não venham a ser, num futuro mais próximo do que imaginamos, o mais importante elemento catalisador do processo transformacional por que a educação está passando?
Mesmo porque, perceber que a habilidade de aprender - e rápido! - pode ser a mais poderosa estratégia mercadológica, e talvez a única, que vá trazer às empresas uma vantagem competitiva real e sustentável no tempo e espaço mutantes em que vivemos.

* Diretora da Sense - Planejamento Estratégico e Comunicação Integral.