GAZETA MERCANTIL - QUARTA-FEIRA, 13 DE MAIO DE 1998 Página A-2
Gestão ambiental é vantagem competitiva
Ricardo Gross Hojda *
A série de normas ISO relativas ao meio ambiente, denominada família
14000, reflete uma das mais profundas transformações culturais
da humanidade neste século. O impacto ambiental do desenvolvimento
material e econômico gerou uma impressionante reação
em cadeia, iniciada no âmbito de entidades ecológicas, como
o Greenpeace, e organizações não-governamentais e
disseminada rapidamente em toda a sociedade universal. Hoje, as empresas
que menosprezam a consciência ecológica são julgadas
e condenadas sumariamente pela opinião pública, correndo
sério risco de sobrevivência.
Rapidamente, percebeu-se que a gestão ambiental, mais do que uma
atitude politicamente correta, tornou-se uma indispensável vantagem
competitiva. Os sistemas de gestão ambiental passaram a ser desenvolvidos
com maior ênfase, na Europa e nos Estados Unidos, a partir da década
de 80, quando grandes acidentes, como Bhopal, na Índia, e Exxon
Valdez, no Alasca, causaram impactos ambientais de grandes proporções
e acirraram ainda mais a mobilização da sociedade em prol
da ecologia.
Custos podem ser reduzidos com a economia de recursos naturais
e diminuição dos resíduos.
Foi nesse contexto que se iniciou, no âmbito do British Standards
Institution (BSI), do Reino Unido, o desenvolvimento de uma norma voltada
ao Sistema de Gestão Ambiental. Esse modelo, denominado BS 7750
foi a base para o desenvolvimento da norma internacional ISO 14001, aprovada
em 1996. Hoje, a nova norma caminha no sentido de atingir a importância
da ISO 9000 (relativa aos sistemas de qualidade), como requisito para o
ingresso das empresas no comércio internacional.
O desenvolvimento de todo esse processo teve outro aspecto importante,
ao demonstrar que o correto estabelecimento da gestão ambiental,
além de responder às exigências da comunidade mundial
e do consumidor-cidadão, também oferece às organizações
vantagens competitivas matematicamente mensuráveis: redução
de custos, em função da economia de recursos naturais e diminuição
da geração de resíduos; possibilidades de conquistar
mercados restritos, como o da União Européia; economia de
recursos pertinentes a indenizações por responsabilidade
civil; mais facilidade para a obtenção de financiamentos
junto a organismos multilaterais de crédito, como o Banco Mundial
(Bird), Banco lnteramericano de Desenvolvimento (BID) e Banco Nacional
de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES); e atendimento às
legislações inerentes ao meio ambiente.
Todas essas vantagens têm sido alcançadas pelas empresas que
estabelecem modelos de gestão ambiental baseados na ISO 14001. A
questão, contudo, transcende o universo empresarial, pois a disseminação
da norma também deve ser analisada num contexto mais amplo: à
medida que a grande maioria do parque produtivo, do Brasil e do mundo,
estiver manejando de forma adequada a sua relação com a ecologia,
mais próxima estará a sociedade humana do conceito ideal
de desenvolvimento sustentado e de manutenção de um habitat
propício à qualidade de vida.
A gestão ambiental facilita a obtenção
de financiamentos junto a órgãos multilaterais.
A postura do Brasil diante de todo esse processo é um bom exemplo
do significado que o sistema de gestão ambiental assume neste final
de milênio. As normas ISO pertinentes à qualidade surgiram
na Europa em 1987. Somente três anos depois começaram, timidamente,
a ser disseminadas no País, que também não participou
de seu desenvolvimento. Agora, é verdade, os sistemas de qualidade
já são vistos aqui com sua devida importância, até
porque se tornaram imprescindíveis nos mercados interno e externo.
Já a norma 14001 contou com a participação brasileira
em sua formatação e chegou aqui quase simultaneamente à
sua implantação nas nações desenvolvidas. O
País conta, inclusive, com organismos certificadores cujos atestados
têm validade internacional. Assim, em termos de gestão ambiental,
o parque produtivo brasileiro conta com instrumentos que o equiparam às
empresas de todo o mundo na compulsiva luta pela conquista dos mercados
globais.
* Auditor Líder da Fundação Vanzolini