GAZETA MERCANTIL - QUARTA-FEIRA, 13 DE MAIO DE 1998	  Página C-2

Banco BMC volta ao mainframe

Instituição financeira rompe contrato de terceirização e economiza US$ 1 milhão por ano.

Taís Fuoco, de São Paulo
O Banco BMC decidiu se rebelar contra os modismos tecnológicos. Contrariando as previsões de que o mainframe (computador de grande porte) morreria e de que a saída para as redes corporativas seria a terceirização e o "downsizing", o banco, que chegou a adotar esses sistemas, resolveu voltar atrás. Rompeu seu contrato de terceirização e adquiriu um moderno mainframe, que incorpora tecnologias que o tornam um superservidor. A economia é de US$ 1 milhão por ano.
"Estávamos desapontados com o 'outsourcing'", diz Aventino João Teixeira, superintendente de redes do BMC. "Esperávamos redução de custos, aumento de flexibilidade e retorno rápida das operações. Nada disso ocorreu", afirma.
Além disso, o banco percebeu que a tecnologia também havia mudado. "Antes tínhamos aqueles CPDs dinossauros e, hoje, conseguimos o equivalente a servidores de grande porte no tamanho de uma geladeira, sem as exigências de ambientação dos antigos CPDs", explica Teixeira.
O próprio banco mudou de perfil. Sem clientes pessoas físicas, a instituição deixou de ter agências concretas e passou a ter apenas instalações virtuais, apesar de estar ampliando seu escopo de atuação - atendendo grandes e médias empresas (antes eram apenas as grandes) e diversificando a oferta de produtos.
"A administração do banco mudou-se para instalações menores. Mesmo assim, instalamos o mainframe 2003 da IBM - o primeiro deste modelo a ser instalado no Brasil - e não precisamos contratar nenhum funcionário. Nossos custos de 'outsourcing' caíram 70%", diz o executivo.
O BMC investiu US$ 600 mil na contratação da Linkware, única empresa que concordou em fazer a inversão dos processos em três semanas. Esse era o prazo de que o banco dispunha para que seu contrato de "outsourcing" não fosse renovado automaticamente.
"Em uma instituição como a nossa, se fazemos as contas na ponta do lápis, vemos que o que parecia ser tendência obrigatória não é sempre a melhor solução", afirma Teixeira.

Inversão de processos foi feita pela Linkware em apenas três semanas.

Cícero José da Silva, diretor da Linkware, conta que a direção do BMC já o procurou com um projeto pronto. "Eles estavam decididos. Tinham problemas com comunicação de dados, qualidade dos serviços, interrupções no canal de comunicação que dispunham entre São Paulo e Sumaré, problemas de logística e de custos com o 'downsizing' feito há três anos", diz.
"Foi uma decisão de coragem, mas muito acertada. Hoje eles têm, com o M2003, um superservidor corporativo que roda os mais diversos sistemas operacionais, uma grande facilidade", diz Silva.
Segundo o diretor da Linkware, a tecnologia TCO ("total cost ownership") é uma das responsáveis pela mudança. "Com o TCO e as mudanças de arquitetura dos mainframes, o 'leasing' de uma máquina desse nível pode ter um custo relativo drasticamente inferior à contratação de uma rede", diz. "Os principais executivos das empresas já estão percebendo que o 'outsourcing' nem sempre é uma vantagem. Os equipamentos estão mais modernos e acessíveis, além de passarem a rodar plataformas Unix e bancos de dados Oracle".
Hoje, o executivo afirma que o BMC dispõe de melhor nível de serviços e, ao invés de gastar US$ 1,2 milhão anualmente com o "outsourcing", passou a gastar US$ 240 mil.
Depois da experiência bem-sucedida do BMC, Silva conta que já recebeu visitas de vários executivos interessados em conhecer o processo pelo qual passou o banco. "Muita gente que fez 'outsourcing' no passado, de forma precipitada, está perdendo dinheiro, principalmente quando o volume de dados é muito grande, como num banco", afirma.
"As instituições financeiras nacionais têm, em geral, uma estrutura inchada e estavam acostumadas a compensar seus custos com a inflação elevada. Hoje, o cenário é outro e quem não se tomar competitivo em termos de custos vai ter problemas para sobreviver", diz o diretor da Linkware.
Um dos bancos que o procurou, e que prefere não ser identificado, gasta cerca de US$ 400 mil mensais com "outsourcing". Seu nível de serviços é ruim e, quando tentou fazer o "downsizing", não conseguiu pelo grande volume de dados que administra. Segundo Silva, o banco está muito disposto a fazer a mesma inversão feita pelo BMC.