GAZETA MERCANTIL - QUINTA-FEIRA, 14 DE MAIO DE 1998             Página  C-8

O novo "espírito" dos negócios

Relação mais aberta entre patrões e empregados dá nova dinâmica às empresas.

Daniele Madureira, de São Paulo
A Nutrimental, empresa brasileira de alimentos semi-prontos, deve lançar doze produtos este ano. As novidades não surgiram a partir da criação ou pesquisa da equipe de marketing e da diretoria da empresa, mas sim das sugestões de alguns de seus 650 funcionários. Os criadores dos novos produtos, que devem engordar em 100% o lucro líquido da empresa em 1998 (previsto para R$ 4 milhões), trabalham na fábrica da Nutrimental, em São José dos Pinhais (PR).
"A participação dos operários nos projetos da empresa é fundamental para o seu desenvolvimento. Nenhuma organização hoje está interessada no funcionário burro, que só faz o que é mandado", afirma Rodrigo Loures, diretor superintendente da Nutrimental. Loures participa hoje da sexta versão do seminário "Organizações Humanizadas e Competitivas", que acontece no Hotel Maksoud Plaza, em São Paulo. "A Espiritualidade nas Fronteiras do Trabalho" é o tema deste ano, e a experiência da Nutrimental deve ser relatada a outros 300 empresários que participam do evento.
A espiritualidade nos negócios pode ser entendida como a humanização do trabalho, a partir da abolição de atividades puramente técnicas e das temidas "chefias". Com a implantação da "administração horizontalizada", as organizações têm investido em projetos envolvendo a participação do empregado, com o objetivo de aproveitar ao máximo de seu potencial criativo. Segundo o empresário, o velho ditado "manda quem pode, obedece quem tem juízo", deve ser extinto das organizações, pois é o empecilho número um da competitividade.
"O chamado 'lado espiritual das pessoas é o que lhes anima para o trabalho, e o que propicia o 'insight' próprio das melhores idéias. E esse lado não deve ser desprezado pelas empresas", afirma. Para ele, os resultados do estilo aberto de administração são imediatos. "As pessoas passam a aprender mais depressa, num clima de cooperação mútua. Elas se sentem ouvidas, importantes, e percebem que a concorrência acontece fora, e não dentro do ambiente de trabalho".
Loures foi buscar no exterior a fórmula para tomar a Nutrimental uma "learning organization", ou organização de aprendizagem. Encontrou-a na Case Western University, em Cleveland (EUA), com o professor de comportamento organizacional David Cooperrider. Foi ele quem introduziu na Nutrimental, em 1997, o método "Appreciative lnquiry", cujo objetivo é atingir a qualidade total partindo do conceito de "espírito de equipe". Até o momento, a empresa investiu cerca de US$ 500 mil no projeto.
Segundo Mário Sérgio Cortella, consultor na área de humanização do trabalho, depois que a reengenharia devassou várias empresas em todo o mundo, as organizações passaram a se preocupar com o aprimoramento da própria equipe. Isso, tendo em vista alguns objetivos básicos como investir no nível intelectual dos funcionários, pois o trabalho mecânico ou braçal tende a ser substituído por máquinas. Também é considerado importante tornar as condições e o ambiente de trabalho mais próximos do ideal, a fim de garantir a fidelidade dos funcionários, impedindo que eles venham a trabalhar para a concorrência. E, o mais importante, fazer com que cada um comprometa-se com o desenvolvimento da empresa.
Para o empresário Ricardo Young, da escola de línguas Yázigi International, a sobrevivência de uma instituição depende do desenvolvimento de um bom ambiente de trabalho, incluindo as relações entre líderes e subordinados. Em 1992, a Yázigi tinha cerca de 130 franqueados. Em 1998, chegou à marca das 250 escolas. "A organização só consegue criar uma identidade e conquistar o seu espaço no mercado por meio do trabalho criativo e participativo de cada funcionário e franqueado, em sintonia com a missão da empresa". Este ano, Young espera aumentar seu faturamento em 20%, para chegar na faixa dos US$ 80 milhões. Entre os principais trunfos da empresa, segundo Young, está o programa "Leaming Network Franchising", uma espécie de oficina de idéias, mantida entre todos os franqueados.
A unidade química da Rhodia, em Santo André (SP), já deixou, há algum tempo, de ter em seu quadro de funcionários o estereótipo do operário à moda antiga, que apenas "aperta parafuso". Segundo Cleusa Batista, gerente de recursos humanos da unidade, o trabalho puramente técnico passou a ser realizado por robôs, depois que algumas posições foram cortadas com a reengenharia. Quem ficou, foi integrado ao projeto "Empregabilidade", que busca preparar os operários para lidar com as mudanças tecnológicas. Nas oficinas de informática, por exemplo, eles entram em contato com a lnternet. A empresa abre espaço para a exibição de filmes brasileiros (como "0 que é isso, companheiro?"), seguida de aulas sobre história do Brasil. Também há turmas que acompanham o "Telecurso 2º grau".
Em que isso pode melhorar o desempenho dos funcionários? "As pessoas estão mais engajadas e a produtividade, consequentemente, aumenta", diz Cleusa. A gerente acredita que os resultados podem ser observados no desempenho da empresa. Em dezembro do ano passado, por exemplo, a fábrica de orgânica fina da Rhodia, em Santo André, ganhou o Prêmio Internacional de Manufactoring do Grupo Rhône-Poulenc.