GAZETA MERCANTIL - SEGUNDA-FEIRA, 18 DE MAIO DE 1998 Página C-3
Trabalho virtual atrai empresas e profissionais
HP, Biosintética, Kodak e Adaptec mandam parte dos funcionários
trabalhar em casa e ganham em custos e produtividade.
Taís Fuoco, de São Paulo
Os recursos de informática estão garantindo economia e aumento
de produtividade às empresas que apostaram num conceito moderno
de trabalho: o virtual. O já possível acesso remoto, de casa
ou das ruas, está acelerando o fechamento de negócios de
companhias como Hewlett-Packard (HP), Kodak e Laboratórios Biosintética.
No caso da Adaptec, empresa norte-americana que desenvolve interfaces para
computadores de pequeno porte, o "country manager" brasileiro é
virtual. José Henrique Amorosino trabalha em sua casa, em Campinas
(SP), desde janeiro do ano passado.
Na Kodak brasileira, outro caso de empresa que adotou o trabalho virtual,
US$ 3,5 milhões foram investidos desde 1984 para oferecer a cerca
de 130 vendedores e executivos a infra-estrutura necessária para
conectar-se à empresa, de casa ou da rua, sempre que for preciso.
Para permitir o acesso, a empresa instalou linhas telefônicas exclusivas
na casa de cada um deles, além de um desktop (computador de mesa),
correio eletrônico, "order entry" (sistema de gerenciamento de clientes
que acessa a situação de cada um deles em relação
a crédito e estoque), secretária eletrônica e pager.
De 1994 para cá, os PCs estão sendo substituídos por
"notebooks" com placa de modem, permitindo que o equipamento possa ser
levado em visitas ou viagens, já na plataforma Windows. O modelo
de e-mail (correio eletrônico) oferecido, o Professional Office System
(Profs), da IBM, foi substituído pelo CC-Mail, da Lotus, que permite
enviar mensagens de forma mais eficiente e barata, segundo a Kodak.
Segundo Waldir Berger, diretor de relações com o mercado
da Kodak, os funcionários perdiam tempo na locomoção
até o trabalho, tomavam cafezinhos com os colegas de escritório,
saíam para almoçar e, em todas essas atividades, perdiam
tempo que poderia ser usado no incremento das vendas.
Com a implantação do acesso remoto, "o número de clientes
visitados por vendedor quintuplicou", afirma Berger. Os clientes também
estão mais satisfeitos com o atendimento dispensado, diz o executivo.
Do início do processo para cá, a mudança mostrou-se
cada vez mais apropriada, segundo ele. "0 trânsito só piorou
e as locomoções estão cada vez mais difíceis",
diz Berger. O único ponto não favorável foi a confraternização
entre os trabalhadores, situação que a empresa tenta contornar
com reuniões de integração.
Além do maior contato com os clientes, que pode resultar no crescimento
das vendas, a Kodak também eliminou o espaço que esses 130
funcionários ocupavam em suas instalações. Outra vantagem,
segundo a empresa, é permitir ao quadro virtual acesso às
informações da empresa 24 horas por dia.
Os Laboratórios Biosintética também adotaram a informática
para incrementar as vendas e prestar serviços diferenciados. Nos
últimos dois anos, a empresa investiu US$ 2,5 milhões em
informatização, dos quais US$ 1 milhão para permitir
o acesso remoto à sua força de vendas. Desse volume, US$
300 mil foram em hardware interno, US$ 400 mil em aplicativos e US$ 350
mil anuais em telecomunicações.
"Adotamos o modelo de equipes de alto desempenho, pelo qual os gerentes
passaram a ser líderes executivos e a figura do chefe deixou de
existir. A Global One foi contratada para fornecer o acesso à lnternet,
que permitirá aos representantes comerciais receber informações,
solicitar pesquisas e amostras de medicamentos", diz Henry Visconde, vice-presidente
da Biosintética.
A empresa colocou o acesso remoto à disposição dos
220 funcionários, entre líderes e representantes comerciais.
A idéia partiu de uma pesquisa que detectou que 35% da força
de vendas da Biosintética dispunha de microcomputador em casa. Os
vendedores já não dispõem de espaço físico
na empresa e, segundo Visconde, "estão mais próximos da Biosintética
do que antes".
Quanto ao retomo do investimento, o vice-presidente afirma que o maior
ganho será na agilidade das informações e no maior
acesso de todos os departamentos aos dados da empresa. "Não queremos
economizar, queremos ganhar produtividade e faturamento", diz Visconde.
A Hewlett-Packard faz uso extenso do trabalho remoto nas áreas de
vendas e manutenção. Dos 850 funcionários que a companhia
mantém no Brasil, 200 trabalham dessa forma, equipados com notebooks
conectados à rede interna, além de telefones celulares. Quando
esse pessoal precisa de uma mesa de escritório para realizar um
determinado trabalho, a empresa coloca à disposição
um escritório virtual.
A idéia surgiu em função do trânsito caótico
da capital paulista e das distâncias a serem percorridas, já
que os escritórios físicos da empresa ficam em Alphaville,
no município de Barueri, Grande São Paulo.
"Colocamos à disposição uma sala na avenida Nações
Unidas, na capital, com várias mesas, telefones e estrutura elétrica
para que os computadores possam ser conectados", diz Alberto Golbert, diretor
de recursos humanos da HP.
A empresa afirma não estar satisfeita com o sistema porque "ele
atinge um número ainda muito pequeno de funcionários. Queremos
ampliar essa forma de trabalho para todos os funcionários fixos
da empresa", diz o diretor da HP.
Segundo o executivo, nos últimos três anos "muito foi investido,
mas, com certeza, os ganhos foram muito maiores que o investimento. Uma
pessoa produz muito mais em casa do que num escritório".
A Manager Assessoria em Recursos Humanos ouviu 314 profissionais, de empresas
de vários setores e espalhadas por todo o País, no período
de dezembro de 1997 a janeiro de 1998. A pesquisa mostra que a opção
por trabalhar em casa ou remotamente mostra-se um desafio para as empresas.
Essa foi a definição do "home office" para 57,3% dos pesquisados.
Para 31,8% deles, a proposta é estimulante, 19,7% dizem ser um sistema
eficaz de trabalho, mas 2,5% acham-no desnecessário e 1,9%, ineficaz.
As vantagens dessa opção podem ser apontadas tanto do lado
dos trabalhadores como da empresa. Na pesquisa, as principais vantagens
apontadas para a empresa são redução de custos, aumento
de produtividade e diminuição do tempo gasto com deslocamentos.
Para o profissional, as vantagens são economia de tempo, melhor
distribuição das rotinas e maior privacidade.