GAZETA MERCANTIL - SEGUNDA-FEIRA, 25 DE MAIO DE 1998 Página A-2
Terceirização, achado do século
Julio S. Souza Cardozo *
A terceirização, desde que realizada com critério e permanente supervisão do contratante, é um dos maiores achados da administração privada neste final de século. Sua aplicação no Brasil é particularmente bem-vinda, tendo em vista o arcaico, irracional e anacrônico sistema tributário nacional. Noutras palavras, a terceirização é indispensável para as empresas brasileiras que se pretendem modernas e bem administradas.
A globalização dos mercados e a busca crescente de novos patamares de competitividade exigem das empresas um esforço permanente de redução de custos. E não há dúvida de que uma das saídas é a utilização de mão-de-obra sem vínculo empregatício. O resultado é sempre dos mais favoráveis para os balanços das empresas. De acordo com a Fipe, que acaba de realizar um estudo sobre o peso dos encargos sociais, um trabalhador custa para o empregador entre 104% e 120% a mais do que o valor nominal de seu salário. A conseqüência óbvia é a elevação dos preços de produtos e serviços, afetando a competitividade e a saúde financeira da empresa, prejudicando o próprio consumidor e a economia do País.
A utilização de mão-de-obra sem vínculo empregatício ajuda a reduzir os custos.
A redução de custos é sempre um desafio, particularmente para uma empresa brasileira. A aprovação recente do contrato temporário representou um avanço na legislação trabalhista, abrindo a possibilidade de reduzir em 7% os gastos com encargos sociais. As dificuldades para cortar despesas, no entanto, ainda são grandes. Basta lembrar que o Brasil contabiliza, aproximadamente, sessenta impostos, cujo somatório eqüivale a cerca de 31 % de nosso PIB, urna das maiores cargas tributárias do mundo. E um verdadeiro emaranhado de tributos, de estrutura obsoleta e excessivamente complexa e que onera demasiadamente produtos e serviços.
A terceirização também desempenha papel fundamental na indispensável busca de qualidade pelas empresas. Sua utilização, aliás, foi incrementada justamente a partir da adoção de programas de qualidade. Ou seja, o objetivo primeiro desse método de gestão era poder contar com serviços melhores. É claro que um grande desafio está em não terceirizar áreas estratégicas, mas apenas aquelas que não integram o núcleo dos negócios de uma companhia, isto é, o que deve ser terceirizado é o que não faz parte do "core business". Isso vale, a propósito, tanto para a esfera privada quanto para a pública, e é o que vem sendo praticado cada vez mais no Brasil.
Um grande desafio está em não terceirizar as áreas estratégicas da empresa.
A verdade é que, se usada corretamente, a terceirização não representa risco para as empresas ou para o trabalhador. Recentemente, montadoras que haviam terceirizado setores essenciais tiveram de voltar atrás e recontratar trabalhadores, pois a qualidade de seus produtos tinha sido afetada. Para que exemplos como este não se repitam, cabe a quem terceiriza não permitir jamais que a terceirização funcione de modo inteiramente estanque. Terceirizar é uma das criações da administração moderna que demandam maior vigilância e atenção. É necessário que ela fique a cargo de especialistas e que seja exercida por mão-de-obra treinada especificamente para cada tarefa. E que resulte, além disso, da mais profunda e permanente harmonia e afinidade entre terceirizador e terceirizado. O que há é que, tanto em relação à terceirização quanto em todo o resto, há boas e más empresas. Felizmente, as primeiras são ampla maioria. E a terceirização, neste caso, é um dos principais instrumentos competitivos de que se pode dispor. Desde que usada corretamente, ela não representa nenhum risco. Ao contrário, é, antes de tudo, um instrumento de sobrevivência.
* Sócio-executivo da Ernst & Young do Brasil.