GAZETA MERCANTIL - TERÇA-FEIRA, 26 DE MAIO DE 1998		Página  C-2

A era do computador com emoções

O cientista Marvin Minsky, do MIT, prossegue na tarefa de dar "bom senso" às máquinas.

Taís Fuoco, de São Paulo
Computadores com "bom senso" e emoção. Pode parecer utopia, mas é com esse objetivo que trabalha uma equipe de pesquisadores do Laboratório de Inteligência Artificial do Massachusetts Institute of Technology (MIT), dos Estados Unidos. Segundo o professor Marvin Minsky, um dos fundadores do laboratório norte-americano, essa possibilidade pode tomar-se real em poucos anos.
Minsky está no Brasil para proferir palestra no 4º Congresso Internacional sobre Tecnologias Inteligentes e Redes Globais, que começa hoje em São Paulo. Ele é um dos cientistas que propagam a idéia de que os computadores podem simular o cérebro humano. Para ele, é um desperdício o que já se gastou até agora na criação de "robôs idiotas, que exercem apenas funções estáticas". Computadores mais inteligentes já estariam em funcionamento, diz o professor, se os recursos tivessem sido mais bem utilizados.
Hoje, os recursos da inteligência artificial são aplicados apenas nas programações específicas para diferentes aplicações. "Não existe um computador que escreva o programa de que você precisa".
Uma das poucas empresas que avançou na tarefa de dotar as máquinas de emoção e "bom senso" é a Cycorp, dos Estados Unidos, fundada em 1980. Como ninguém acreditava no sucesso de empreendimento, a companhia não teve concorrentes por muito tempo. A empresa já armazenou dados de 10 anos de pesquisa e, de acordo com Minsky, é a que está mais próxima de chegar ao computador que raciocina.
Há outros países pesquisando os recursos da inteligência artificial, mas ninguém, segundo o pesquisador, conseguiu chegar a uma máquina "com mais bom senso que uma criança de quatro anos".
Um computador desse tipo exigirá uma mudança profunda na cultura de cada país que o adotar. Apesar disso, este é um caminho sem volta, afirma Minsky. "Os computadores ficarão mais baratos e o número de programas será reduzido drasticamente. Será necessário ler apenas um programa para desenvolver os demais".
O cientista admite que isso pode acabar com os pacotes de "softwares" atuais. "Os programadores querem criar algo perfeito, que não possa ser mudado de acordo com as necessidades. Essa cultura precisa mudar". Para exemplificar a importância do "bom senso" nos computadores, ele cita um programa do MIT para diagnosticar doenças renais. "Ele foi incapaz de diagnosticar um trauma causado por uma batida que o paciente sofreu porque não assimilava a informação de que o rim ficava no corpo humano".
Além desse senso comum básico, Minsky também considera de suma importância que os computadores tenham "emoções". "A emoção é diferente do pensamento. É a maneira de pensar diferentes soluções para diferentes problemas. Mesmo as atividades intelectuais são uma forma de emoção", afirma.
Segundo o cientista, existem diferentes "emoções" ocupando as várias instâncias do hardware, comparado ao cérebro humano.
Dotar os computadores de emoções, como um cérebro, será particularmente importante na navegação na Internet, afirma o professor do MIT. Para Minsky, será muito mais fácil fazer pesquisas na rede mundial quando o computador tiver critérios para saber, em cada "home page", o que pode estar ligado ao assunto pesquisado pelo usuário.
Minsky trabalha com pesquisas na área da inteligência artificial desde a década de 50, quando publicou o livro "Redes Neurais e o Problema do Modelo Cerebral". Atualmente, escreve o livro "A Máquina da Emoção", no qual descreve os papéis desempenhados pelos sentimentos, emoções e pensamentos na organização das tarefas cotidianas de um computador.