GAZETA MERCANTIL - SEXTA-FEIRA, 29, E FIM DE SEMANA, 30 E 31 DE MAIO DE 1998 Página A-2
Qualidade em serviços
Roberto Cintra Leite *
Quando se fala em qualidade e produtividade, logo se pensa em um fabricante
de bens de consumo que vende seus produtos no atacado ou os coloca no varejo
por meio de urna rede de distribuidores. A qualidade pode ser controlada
nas várias fases da produção, isto é, na linha
de montagem e no estoque final. Porém, como o produto é estocado,
embalado, manuseado por várias pessoas e empresas, pode chegar às
mãos do consumidor já avariado. O custo do conserto, reposição,
reembolso e retrabalho é tão oneroso, que se desenvolveu
um conceito de troca de unidades inteiras dentro de uma máquina,
como nos computadores em que se substituem as placas inteiras de processamento.
Na área de eletroeletrônicos, por exemplo, é mais barato
e rápido comprar um equipamento novo do que chamar a assistência
técnica ou brigar para exigir as garantias do Código de Defesa
do Consumidor. Embora essa legislação brasileira esteja entre
as mais avançadas do mundo, ainda há um longo caminho a percorrer
para que funcione com eficácia em termos práticos. O próprio
Código atribui a co-responsabilidade do fabricante e de todos os
envolvidos na cadeia de distribuição e venda, até
a chegada do produto ao consumidor final.
O consumidor brasileiro já tem plena consciência disso, embora
muitas vezes prefira comprar um produto novo do que ter de "advogar" seus
direitos, pois isso, infelizmente, exige tempo e muita, mas muita paciência
mesmo. Surge, aí, entretanto, uma questão crucial: o consumidor
insatisfeito, independentemente do Código, troca de marca, de loja,
de assistência técnica e de fornecedor. E isso é inexorável,
estabelecendo a exigência da qualidade como estratégia fundamental
de sobrevivência.
O consumidor insatisfeito troca de marca, de loja, de assistência
técnica e de fornecedor.
É exatamente por isso que numerosas empresas estão agregando
serviços aos seus produtos, como o "delivery", a instalação
de simples aparelhos de TV e videocassete, assistência técnica
mais eficaz e o telemarketing de acompanhamento, que realiza pesquisa de
satisfação do consumidor no pós-venda. Esses serviços
agregados à venda geralmente são terceirizados, o que é
conceitualmente correto, pois isso possibilita às empresas contar
com apoio especializado, sem a necessidade de montar estruturas alheias
à sua atividade principal.
É extremamente louvável a iniciativa das empresas que procuram
agregar serviços especializados à venda de seus produtos.
Nota-se, no entanto, que ainda há uma falta de apoio a essa rede
terceirizada de prestadores de serviços. A começar pela falta
de treinamento adequado, visando garantir a sua qualidade. Um dos diferenciais
que surgem no mercado são as redes franqueadas de prestação
de serviços, que, ainda experimentalmente, começam a se organizar.
Contando com o "know-how' dos franqueadores, essas empresas podem dispensar
o treinamento dos fabricantes que as contratam, pois já nascem com
toda uma cultura voltada ao atendimento rápido, cortês e preços
mais competitivos.
Sem contar com serviços terceirizados eficientes será
preciso gastar com o pós-venda.
Os prestadores de serviços que não se nivelarem, em termos
de qualidade, a essas franquias nascentes, correm sério risco de
sucumbir à concorrência. Muitos deles demonstram não
ter caído no Real, pois seus preços e qualidade deixam muito
a desejar. Alguns fabricantes começam a se preocupar com a própria
sobrevivência, questionando como melhorar a prestação
de serviços ao consumidor final.
Até o momento, culpam-se os prestadores de serviços pela
baixa qualidade da mão-de-obra. Mas é preciso considerar
que o consumidor refém é vingativo por natureza e comodista
como um rei. Sem contar com serviços terceirizados eficientes, será
necessário investir muito dinheiro na organização
de uma rede para o atendimento no pós-venda, manutenção
e assistência técnica.
Por outro lado, há bons prestadores de serviços, franqueados
ou não, que ainda não sabem como divulgar o seu trabalho.
Cria-se, assim, uma imensa lacuna entre os fabricantes que procuram bons
serviços e as empresas capazes de atender a essa demanda. Para suprir
esse buraco negro, há mais de dez ferramentas que podem ser utilizadas
no processo de comunicação com o mercado. Trata-se do Marketing
de Serviços, que começa a chegar ao Brasil. Para quem já
atingiu a excelência em sua atividade, essa é uma ferramenta
imprescindível, pois possibilita que se diga ao mercado: presto
bons serviços, logo existo!
* Especialista em Marketing de Serviços, sócio-diretor da
Cintra Leite/Horwath Franchise Services.