GAZETA MERCANTIL - SEXTA-FEIRA, 5 E FIM DE SEMANA 6 E 7 DE JUNHO DE 1998	  Página  A-2

Autogestão nas empresas

Vladimir Rioli *
A gestão participativa, a participação nos lucros e a democratização da propriedade têm-se constituído, neste último quartil do século 20, nos fundamentos para a formulação de novos paradigmas nas relações socioeconômicas, particularmente, nas relações entre o capital e o trabalho, contribuindo para o ressurgimento de experiências autogestionárias.
Sob forte inspiração do ideário socialista no passado, hoje prosperam empresas autogeridas em economias de mercado desenvolvidas.
No processo autogestionário, a participação do trabalhador na empresa é praticada em todos os níveis e esferas, ensejando um novo padrão comportamental, fundamentado na ética e na solidariedade, destacando-se como o ápice dessa participação o poder de influir ou, até mesmo, decidir sobre os destinos da empresa - só possível quando os trabalhadores tomam consciência e assumem a plenitude das ações estratégicas da empresa. A simples constatação dos níveis de participação a seguir destacados prova nossa assertiva.
Através da participação na gestão dos processos, os trabalhadores assumem responsabilidade crescente e o efetivo controle de suas funções, liberando suas potencialidades individuais. Disso resulta o aumento de sua motivação e satisfação profissional e uma significativa melhora em seu desempenho.

A participação nos resultados financeiros traduz-se em melhor desempenho.

A participação nos resultados financeiros, traduzida em mecanismos que aumentam sua relação renda/esforço do trabalhador, provoca maior engajamento nos processos produtivos. As bonificações por aumento de produtividade e os bônus de produção por metas atingidas são exemplos desses mecanismos, sem contar a participação nos lucros, forma mais abrangente e universal de participação nos resultados financeiros das empresas.
A participação no capital estabelece a conexão entre o aumento da renda futura do trabalhador com o desempenho da empresa a longo prazo. Na esfera estrutural, essa participação conduz ao fortalecimento do mercado de capitais, representando um avanço na democratização do capital e da propriedade.
Além dos aspectos supracitados, afloram, de forma clara e contundente, as duas funções indissolúveis da empresa: a função econômica (que objetiva maximizar o retorno do capital investido) e a função social (que visa otimizar o bem-estar dos agentes que interagem com a empresa, em especial os trabalhadores e a comunidade onde ela se insere econômica e socialmente).

Nos Estados Unidos constata-se a tendência de crescimento experiências de autogestão.

No Brasil, os modelos autogestionários que prosperaram nos últimos anos, em grande parte têm sido tentativas dos trabalhadores de garantir a manutenção do emprego e rendas. Em outros países, a adoção da autogestão em empresas tem sido uma prática crescente, propiciando a aplicação dos mais variados modelos, adaptados a cada situação específica, tais como: cooperativas, sociedades anônimas, associativismo, etc.
Nos Estados Unidos, a meca do capitalismo, constata-se a tendência de crescimento de experiências autogestionárias. O governo desse país, desde os anos 70, tem estimulado programas de financiamento para os trabalhadores adquirirem ações das empresas em que trabalham. Mais de 10 milhões se tomaram sócios e, em centenas de casos, assumiram, inclusive, seu controle acionário, fazendo da unidade uma empresa autogerida.
Outro exemplo paradigmático é o de Mondragón, na região basca, onde um complexo constituído por dezenas de unidades industriais e de serviços é integralmente gerido pelos seus próprios trabalhadores, ocupando, atualmente, o 10º lugar no ranking dos grupos empresariais na Espanha.
Vem, pois, em boa hora, a realização do seminário internacional sobre este tema, sob a iniciativa da Associação Brasileira de Autogestão, onde essas e outras experiências internacionais e brasileiras serão apresentadas e discutidas com a finalidade de difundir o ideário autogestionário no Brasil.

* Presidente da PluriCorp S.A. e conselheiro da Abamec e da Associação Brasileira de Autogestão.