GAZETA MERCANTIL - TERÇA-FEIRA, 30 DE JUNHO DE 1998		Página  C-8

O que mantém um executivo na companhia

Na hora de decidir ficar, ou não, em um emprego, o que conta mesmo são perspectivas da carreira, clima da organização e, em terceiro lugar, o salário.

Patrícia Campos Mello, de São Paulo
Denoel Eller, de 36 anos, faz parte de um seleto grupo de executivos muito disputados no mercado. Diretor do Grupo de Networking/Comunicação de Dados da Motorola, este engenheiro formado pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, com pós-graduação em Administração Industrial e especialização em Marketing pela Fundação Getúlio Vargas, vem sendo constantemente assediado para mudar de emprego. Há seis meses, recebeu uma proposta tentadora de uma das operadoras da Banda B: o salário era melhor e o trabalho, um desafio. Mesmo assim, preferiu continuar na Motorola, onde está há um ano e quatro meses.
"A cultura da companhia pesou muito na minha decisão, não sei que tipo de ambiente iria encontrar em uma empresa em formação", explica. "Além disso, a Motorola tem muita preocupação com a carreira dos empregados, existem muitas possibilidades de promoção ou mesmo de mobilidade horizontal, de desempenhar novas funções." Em março, Eller foi fazer um treinamento em Chicago, um de uma série de cursos. O engenheiro valorizou também a possibilidade de trabalhar no exterior e suas perspectivas de crescimento a médio prazo.

Disputa nas áreas de telecomunicação, energia, bancos de investimento e varejo.

Com a entrada de empresas estrangeiras e o "boom" das privatizações, a disputa por profissionais especializados está acirrada, principalmente em setores como telecomunicações, energia, bancos de investimentos e de varejo. De acordo com Sofia Esteves, diretora da DM Recursos Humanos, o salário dos executivos de teles teve um aumento de cerca de 30%. Muitas empresas querem ganhar a lealdade dos funcionários mais qualificados.
Mas, afinal, o que é que segura um executivo em seu emprego? Certamente não se contenta um funcionário apenas com um bom salário. De acordo com uma pesquisa do Grupo Catho, de consultoria em Recursos Humanos, realizada com 1.356 executivos (em cargos de gerente para cima), a carreira é o que mais conta. A pesquisa apurou os fatores que influenciam na satisfação geral no atual emprego: perspectivas de progresso na empresa para os próximos três anos (26,04%), o clima organizacional (20,74%), a remuneração (12,88%), o estilo de processo decisório (8,35%), a solidez financeira do empregador (7,15%), os benefícios oferecidos (6,72%), o grau de estresse (6,18%) e outros.
Para não perder seus executivos mais cobiçados, a Rhodia vai investir na política de remuneração variável. Segundo Gilberto Lara Nogueira, diretor de Recursos Humanos da empresa, até o final do ano mais funcionários da empresa terão direito à remuneração em "stock options", que hoje é restrita à alta diretoria. Isso significa que funcionários terão direito a comprar ações da Rhodia a preço x (estabelecido hoje) daqui a três anos, incentivando pessoas a ficarem no emprego.
Nogueira tem sentido a pressão sobre os executivos na empresa. "As empresas que estão chegando no Brasil não têm tempo para ficar treinando pessoas, elas querem funcionários formados", diz. Para evitar baixas em seus quadros, a empresa vem enfatizando seus princípios na área de recursos humanos. O primeiro deles é manter um bom clima organizacional: a empresa deve apresentar um ambiente agradável, de cooperação e não de puxar o tapete. O segundo mandamento é não deixar os funcionários parados. "Oferecemos cursos no exterior e imobilidade horizontal e vertical". Entre eles, convênio com o Insead (The European Institute of Business Administration, na França) e missões em outras áreas da empresa.

Algumas empresas adotaram o "stay bonus" para segurar profissionais.

O valor inestimável de um executivo dessas áreas está inaugurando a era do "stay bonus". Ao lado dos "signing bonus" (luvas), que as empresas utilizam como prêmio para "roubar" altos funcionários de outra companhia, empresas zelosas de seus executivos estão lançando mão dos "stay bonus". "Para o funcionário não deixar a empresa, eles oferecem bônus que são pagos a cada três meses, durante dois anos, por exemplo. A quantia não é parte fixa do salário", explica Ana Paula Chagas, sócia da Heidrick & Struggles, multinacional de "executive search". De acordo com Ana Paula, sua empresa intermediou duas contratações de executivos, para uma empresa de informática e uma de consumo, que previam o "stay bonus".
A combinação salário ruim mais trabalho chato continua sendo um dos principais motivos para a saída. "As empresas bobeiam, não percebem que o funcionário está fazendo uma tarefa repetitiva", diz Ana PauIa. Remuneração correta, bom nível de autonomia, desafios e liberdade de ação são parte da fórmula para manter o bom executivo.
No caso de Francisco Ferraroli, 47 anos, gerente-geral da área de Plásticos de Engenharia, divisão da Rhodia, um ambiente mais "employee-friendly" e o dinamismo de funções fizeram com que ele recusasse uma ótima proposta. Ele foi abordado diversas vezes por "headhunters", com ofertas de salários até 40% maiores e, mesmo assim, resolveu não deixar sua carreira de 22 anos na Rhodia. "Na Rhodia, eu nunca fiquei na mesma função por mais de quatro anos, tive muitos desafios", diz.
Já a política de benefícios começa a ser repensada por muitas empresas. Como forma de agradar seus altos funcionários, os benefícios não têm sido muito eficientes e pesam pouco na hora de mudar de emprego. "O grande problema é que as empresas oferecem um pacote único de benefícios", diz Andrea Huggard-Caine executiva da Hewitt Brasil, empresa de consultoria. Para Andrea, a tendência é que o pacote se tome mais flexível. "É importante oferecer benefícios adequados à idade, situação e outras características de cada executivo. Só assim eles vão servir para segurar os funcionários."

Nota

O clipping ‘AS ESTRATÉGIAS DAS EMPRESAS PARA CONQUISTAR O FUNCIONÁRIO’ complementa este artigo.