GAZETA MERCANTIL, SEGUNDA-FEIRA, 03 DE AGOSTO DE 1998

Programas para "trainees"perdem o viço

Alunos mostram menos interesse e cresce a concorrência entre empresas, que têm dificuldades para achar pessoal qualificado.

Patrícia Campos Mello, de São Paulo

Os programas de "trainee", tradicionalmente passaportes para longas carreiras em grandes empresas, estão em baixa. Consultorias de recursos humanos, especializadas em recrutamento de trainees, detectaram uma crise no setor. Por um lado, caiu o interesse dos recém-formados - muitos preferem entrar em cargos fixos nas empresas, fazer cursos no exterior após o fim da faculdade ou abrir um negocio próprio. Já as empresas estão sentindo uma maior dificuldade em encontrar recém-formados qualificados. Mais e mais companhias estabelecem programas de "trainees", mas não encontram os suficientes jovens e formados em faculdades de primeira linha.
De acordo com uma pesquisa concluída pela consultoria Companhia de Talentos, que há oito anos organiza recrutamento de recém-formados para empresas como Gessy Lever, Citibank, ABN Amro, Cargill, Rhodia e Brahma, 36% dos alunos de último ano de faculdades de primeira linha nunca sequer ouviram falar de programas de "trainee". Entre os que conhecem o sistema, apenas 68% mostraram interesse em participar. Apesar de não ter dados comparativos em relação a outros anos, Sofia Esteves, diretora da consultoria, percebeu uma baixa acentuada.
Na pesquisa, foram entrevistados 583 estudantes do último ano de sete grandes faculdades: Universidade de São Paulo (USP), Universidade de Campinas (Unicamp), Instituo Tecnológico Aeronáutica (ITA), Fundação Getúlio Vargas (FGV), Instituto Mauá de Tecnologia, EscoIa Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) e Pontifícia Universidade Católica (PUC). Foram pesquisados estudantes de Engenharia, Administração de Empresas, Psicologia e Comunicação Social. "Queríamos descobrir o perfil dos formandos e o porquê da crise nos programas", diz Sofia.
Cerca de 43% dos alunos preferem trabalhar em multinacionais. Há cinco anos, esse percentual era 70%.

Interesse em programas de trainees *
Muito interesse68%
Pouco interesse 24%
Não tem interesse7%
Fonte:Companhia de Talentos * Base: (373) entrevistados que conhecem algum Programa de Trainees.






Planos para o futuro *
Manter boa qualidade de vida 45%
Especializar-se para ser ótimo profissional 22%
Ganhar ótimo salário/remuneração 14%
Atingir altos cargos/posição de destaque12%
Buscar estabilidade profissional 5%
Ganhar o suficiente para fazer o que gosto3%
Fonte: Companhia de Talentos * Base: (583) total da amostra.

Entre os alunos, 28% gostariam de montar o próprio negócio, enquanto 43% preferem trabalhar em multinacionais de grande porte. O número caiu muito, há cinco anos era de pelo menos 70%. "As multinacionais estão perdendo espaço para a chamada era 'Bill Gates': jovens querem montar o próprio negócio e ficar milionários", analisa Sofia. "Além disso, eles ficaram traumatizados com a era de 'downsizing'. Não querem ser iguais a seus pais, que deram a vida por empresas, muitas vezes negligenciando a família, foram despedidos e agora sofrem para obter uma recolocação", segundo Sofia.
Muitas pessoas querem adiar a entrada no mercado de trabalho. Logo que se formarem, os estudantes vão buscar um curso de especialização: 11 % querem continuar os estudos no exterior e 6%, no Brasil.
Várias empresas registraram uma baixa no número de currículos recebidos. Mesmo quando o número de candidatos mantém-se estável ou aumenta, vagas deixam de ser preenchidas por causa da falta de recém-formados qualificados. Na Gessy Lever, o número de inscritos para o programa de trainees caiu 10%. Das 30 vagas abertas no ano passado, duas ficaram em aberto, por falta de candidatos que preenchessem o perfil desejado.
A empresa investe, por ano, R$ 250 mil só na divulgação do programa e R$ 1 milhão no total. "Mesmo assim, eu não acho que tenha caído o interesse dos 'trainees'. Os estudantes sabem que a Gessy investe nos 'trainees' a longo prazo, e que eles podem aposentar-se na empresa como diretor ou presidente", diz Nelson Savioli, diretor nacional de recursos humanos da Gessy Lever. "Mas eu sei que empresas que esperam resultados rápidos dos 'trainees' estão com dificuldades para encontrar pessoal qualificado."
No Citibank, a situação não é melhor. "Está bem mais difícil de encontrar 'trainees', o nível de exigência é maior", diz Sandra Rodrigues, consultora de recrutamento e seleção no Citibank. "Conseguimos preencher todas as vagas, mas antigamente era muito mais fácil."
Em uma instituição financeira que está realizando recrutamento para 30 vagas de "trainees", o número de candidatos ficou bem abaixo das expectativas. Consultores esperavam receber 3 mil currículos, mas apenas um mil foram enviados.
Na opinião de João Rodrigues Canada Filho, diretor da Foco Recursos Humanos, houve um grande aumento no número de empresas que oferecem o treinamento, o que não foi acompanhado pela oferta de recém-formados. "Além disso, os pré-requisitos estão mais rígidos."
Na opinião da consultora Célia Costa, da Foco Recursos Humanos, o recrutamento torna-se mais difícil quando as empresas restringem os candidatos a estudantes de faculdades de primeira linha. O programa de "trainee" da Ernst & Young, por exemplo, não exigia estudantes da USP, GV ou ITA. Com isso, a empresa recebeu 5 mil currículos, 600 pessoas foram chamados para a primeira prova e 152 farão as entrevistas individuais para concorrer a 65 vagas de auditor e consultor.

O recrutamento é mais fácil em empresas que não exijam formados em faculdades de primeira linha.

O interesse pelos programas de "trainee" parece estar diminuindo. Na pesquisa, muitos alunos afirmam preferir oportunidades mais concretas, porque souberam de vários casos em que o "trainee" não progrediu e acabou sendo despedido.
O estudante Alexandre Della Santa Barros, de 21 anos, vai formar-se este ano em Engenharia Elétrica na Poli-USP. Estagiário em uma empresa de informática, ele não faz "a menor questão" de ser "trainee". "Quero trabalhar, mas não importa se vou ser 'trainee', não tenho essa preocupação fixa", diz. Sua prioridade agora é estudar inglês. "Após me formar, quero passar um tempo fora para fazer um curso de línguas, porque ainda não sei falar inglês fluente."
Este foi um grande problema detectado pela pesquisa. Hoje em dia, quase a totalidade dos programas de "trainee" exige inglês fluente e alguns pedem domínio do espanhol. Mas apenas 48% dos estudantes dizem ser fluentes em inglês. "Quando na realidade se sabe que esse número pode ser bem menor, dado que muitas pessoas afirmam ter inglês fluente quando não têm", diz Sofia. Já a computação não é mais um empecilho: 70% dos estudantes dominam o trabalho com computadores.
Já o estudante Alexandre do Amaral Terzi, de 23 anos, continua achando que ser "trainee" é um ótimo negócio. Ele quer seguir os passos do presidente do Citibank, Aleides de Souza Amaral, e do presidente da Gessy Lever, Umberto Aprile, ambos ex-"trainees". Cursando o último ano de Engenharia de Alimentos na Mauá, seu objetivo é ser "trainee" em uma multinacional de alimentos ou embalagens. Na opinião de Terzi, o "trainee" tem muitas vantagens, porque é assessorado a todo momento, o que contribui para a formação pessoal. "É um diferencial muito grande, você entra como uma estrela na empresa, que está apostando em você", acha Terzi. "Quero trabalhar em uma multinacional, principalmente por causa da possibilidade de trabalhar fora do País", diz o estudante, que fala inglês, francês e italiano e está fazendo curso de espanhol.