Novo modelo de gestão na administração
pública
Experiência iniciada na Embrapa começa
a ser ampliada.
lsmar Cardona, de Brasília
Três letras estão começando a mudar a cabeça
da administração pública brasileira. Trata-se do BSC
(Balanced Scorecard), um modelo de planejamento estratégico desenvolvido
pela Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, já adotado por
um grande número de empresas multinacionais e que está sendo
testado, desde fevereiro do ano passado, pelo Centro de Tecnologia de Alimentos
(CTA), da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa),
no Rio de Janeiro.
E os bons resultados alcançados no CTA levaram a Escola Nacional
de Administração Pública (ENAP) a adotá-lo
também, desde o início deste ano, sob a supervisão
da Embrapa. A partir de fevereiro de 1999, toda a Embrapa passará
a ter seus passos monitorados pelo BSC.
Em reconhecimento à sua contribuição ao processo de
modernização do Estado, o Projeto Balanced Scorecard foi
um dos agraciados pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, ontem, com
o Prêmio Hélio Beltrão, que aponta anualmente as melhores
experiências de gestão na administração pública
federal.
Marlene Araújo, que integra o grupo encarregado de coordenar a gestão
estratégica na empresa e pilotar a aplicação do BSC,
define o modelo como uma pirâmide achatada, que cria um sistema de
poder compartilhado e participativo, com a delegação de poderes
aos diversos níveis de toda a organização.
Antes da chegada do BSC, o CTA elaborava seu planejamento estratégico
com base em intenções, sem que existisse ferramentas de gestão.
"Sonho sem ação - diz Marlene -, impede que se chegue a algum
lugar, da mesma forma que se pode ter várias ações
sem nenhum objetivo. É como um monte de setas apontando para vários
locais, como Alice no País das Maravilhas". O novo planejamento
estratégico reduz o número de setas e elas passam a apontar
em uma mesma direção.
O BSC foi trazido à empresa pelo pesquisador da empresa Paulo Fresneda,
que passou um ano estudando em Harvard. Fresneda, junto com Marlene e Fernando
Garagory, integra o núcleo que administra a aplicação
do modelo de gestão estratégica na Embrapa.
Fresneda é físico, com mestrado em informática e PHD
em administração pública; Femando é uruguaio
e especialista em métodos e técnicas estatísticas,
PHD em pesquisa operacional. Também foi professor universitário
no Chile. Os três são os principais mercadólogos da
empresa, que até pouco tempo atrás era praticamente uma reserva
de mercado para agrônomos.
A história de Marlene na empresa começou há pouco
mais de quatro anos, quando passou em primeiro lugar em um concurso que
buscava recrutar especialistas em planejamento estratégico orientado
para o mercado. Antes, havia trabalhado por 13 anos no setor privado.
Sua grande mestra, alvo das maiores reverências, é a ombudsman
do Grupo Pão de Açúcar, Vera Giangrande de Mello.
Com ela, Marlene trabalhou durante cinco anos, quando Vera ainda era dona
da Inform Consultoria de Relações Públicas, atendendo,
na área de alimentos, a clientes de peso como a Gessy-Lever e Van
Der Berh & Clayton. Foi, também, gerente de comunicação
da margarina Becel.
Projeto aproxima a administração pública
de conceitos comuns na iniciativa privada, como satisfação
do cliente e marketing.
O Projeto Balanced Scorecard - os técnicos da Embrapa ainda não
encontraram uma expressão em português para traduzir o conceito
- implode com velhas práticas sobre objetivos, metas, cobranças
e relacionamentos entre funcionários e serviço público.
"A regra até agora era cada um no seu mundinho", resume Marlene.
"Hoje, o funcionário já entende que é preciso mudar
essa forma de agir. Na escolha de pesquisas a serem desenvolvidas não
basta mais a inovação pela inovação. Não
há mais recursos para tarefa s que se limitem apenas a massagear
o ego do empregado. Não vale mais pesquisas para avaliar quanto
pesa o macaco no galho de uma árvore".
Várias empresas e órgãos do governo já manifestaram
interesse em conhecer o sistema, como o TCU, Banco Central, Infraero, Finep,
Conab, Correios e Eletronorte.
Com o BSC, a Embrapa - segundo seu presidente, Alberto Portugal - pretende
ganhar cada vez mais eficiência e prestar serviços de qualidade
dentro da moderna visão de empresa estatal, que é a de focar
a ação no cliente. A idéia chave é conscientizar
o empregado de que a Embrapa está em um negócio como qualquer
outro, precisa ter bons produtos, boa rede de distribuição
e saber promover esses produtos. É o moderno conceito do marketing
que trata do relacionamento da empresa com a sociedade. "O empregado que
é bem avaliado sabe que será premiado, e o que reincide em
mau desempenho por três anos é candidato ao desemprego", diz
Portugal.
A defesa da marca Embrapa passa a ser objetivo de todos os funcionários.
Palavras como mercado, missão, foco, produto, parceria, cadeia produtiva,
ponto-de-venda e promoção estão sendo incorporados
ao dia-a-dia da empresa.
O novo sistema ajudou a apontar o diferencial competitivo do CTA. Antes,
segundo Marlene, a unidade era extremamente ambiciosa em suas áreas
de atuação. Fazia análises Iaboratoriais, desenvolvia
equipamentos para indústrias, trabalhava em pesquisas com óleos
vegetais, enzimas, pós-colheita etc. Não procurava maximizar
esforços em suas áreas de maior competência.
Nas empresas que contam com métodos de gerência estratégica
fica mais difícil para os incompetentes se esconderem atrás
da engrenagem burocrática, como é comum em algumas áreas
do serviço público. "No CTA é impossível um
incompetente embromar. O sistema de avaliação e acompanhamento
não deixa", garante Marlene.
A chefia do CTA elegeu 17 objetivos estratégicos, cada um deles
sob a responsabilidade de um gerente. Aumentar a satisfação
dos clientes foi o primeiro objetivo fixado. Outro foi atualizar as técnicas
de laboratório. A preocupação com a melhoria do nível
de satisfação dos clientes levou até à criação
de um serviço de atendimento ao cliente.
GAZETA MERCANTIL, QUINTA-FEIRA, 17 DE DEZEMBRO DE 1998