Sergio Augusto Trouillet
Administrador, Contador,Analista de Sistemas, Mestrando de Engenharia
de Produção-UFSC
Rua Aracy Vaz Callado, 1677 Bl.B-102-Florianopolis ZC-88090-260
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ABSTRACT
In a rapidly changing world, global brazilian manager need to understand
their culture, and to increase their skills at diagnosing resistance to
change and evaluating strategic action.
This paper develops a initial model with which to examine the brazilian
people behavioral, focused on the human aspect of knowledge and suggest
an relationship between creative thinking, intuition and strategic action.
The researches focused on the human aspect of strategic planning in
organizations, seeing it as the solution of strategic choice and global
competition.
A brazilian model of strategic thinking is built on the basis of a
new conceptualization and explored through discussion of a field study
of individual and corporative knowledge. Implications for employment of
the concept of strategic action and knowledge are explained and discussed.
KEYWORD: Strategy, Knowledge, Competence
1. O PODER INDIVIDUAL E O PODER COLETIVO
" Onde existe poder, existe resistência ... para resistir, é
preciso que a resistência seja como o poder. Tão inventiva,
tão móvel, tão produtiva quanto ele. Que, como ele,
venha "de baixo" e se distribua estrategicamente ... podemos sempre modificar
sua dominação em condições determinadas e segundo
uma estratégia precisa " Michel Foucault (Microfísica do
Poder-pag.240/1 - 1979 )
As formas econômicas do mundo contemporâneo, caracterizam
a ampliação de um ambiente de mercado globalizado, ou seja,
um conjunto de ofertas e necessidades oriundas de culturas com características
diversas e destinadas a outras culturas heterogêneas. A tecnologia
da comunicação e do processamento da informação
já disponibilizam condições , em tempo real, para
o surgimento de um processo de aculturação das sociedades
economicamente menos desenvolvidas ( os denominados "mercados emergentes"
) por aquelas que já possuam um efetivo domínio tecnológico
e econômico. E esse processo de aculturação poderá
proporcionar a criação de novas e monolíticas relações
de poder.
Porém, existem diversas barreiras psicológicas, físicas
e ecológicas que impedirão que essa aculturação
se processe de um modo inercial. Mais do que nunca as nações,
nas quais as pessoas cultuam formas individualistas para conquista de poder,
estarão vulneráveis e sujeitas a um desgaste intenso em seus
valores culturais e sociais, o que as levará à dependência
com relação aos meios de produção globalizados,
isto se não souberem converter a fragilidade da postura individualista
em
uma nova forma potencial de competitividade.
Na conjuntura mundial contemporânea, a cultura empresarial brasileira
encontra-se vulnerável, pois criada e amadurecida com uma linguagem
e cultura inflacionária apresenta-se como incapaz de reagir com
rapidez, conhecimento e eficácia às novas situações
e desafios de um mundo altamente competitivo que disputa, vorazmente, novos
mercados. Sob essa cultura inflacionária, a regra-mãe para
administração de negócios era o repasse dos custos
da incompetência gerencial para os preços finais dos produtos.
O mercado consumidor, sem uma memória comparativa de valores de
produtos, assimilava e pagava caro pelos erros gerenciais, o mesmo acontecendo
nas instituições governamentais que se valiam do mesmo "estilo"
de gestão. Essa cultura consagrou uma permanente atitude de imediatismo
gerencial, onde o planejamento era execrado como componente eficaz
de gestão e de crescimento, na justificativa de que era impossível
planejar com inflação: estimavam-se volumes e valores indexados
e não estratégias corporativas de médio e longo prazos.
Atualmente, nas universidades brasileiras, o estudo de inúmeras
disciplinas (principalmente aquelas voltadas à administração
) se faz sobre textos que retratam culturas, experiências, casos
práticos e resultados verificados em empresas ou instituições
governamentais de paises do hemisfério norte. De modo semelhante,
os empresários e administradores brasileiros estão tendo
que compreender, assimilar e administrar valores sociais, culturais e econômicos
de outras nações para os quais não foram preparados
e com os quais não possuem intimidade, sendo levados a uma imensa
inferioridade competiva.
Embora o esforço de compreensão das regras de negócio,
nos países desenvolvidos, seja importante e louvável, identifica-se
nessa atitude o perigo de serem esquecidas as características brasileiras
culturais, idiossincrasias sociais e o acervo nacional de talentos em detrimento
da tentação de tentar-se igualar a eles ( os empresários
e técnicos do primeiro mundo).
Uma de nossas mais típicas características culturais
é aquela que identifica sempre no Estado Brasileiro a responabilidade
senhorial pelos destinos da nação e pela solução
dos problemas sociais. A prática comportamental brasileira é
a do individualismo, o que leva a considerar, por exemplo, logradouros
públicos sempre como dos "outros" , deixando-se o cidadão
levar pela omissão . Isso gera na sociedade o hábito consagrado
de reclamar dos serviços públicos que não nos oferecem
atendimento de qualidade e até defender a tese de que deveriam ser
extintos enquanto públicos, e não exigir que
um serviço que pertence à sociedade civil seja administrado,
com competência, por quem por ela foi delegado para fazê-lo.
Esse perfil comportamental interfere diretamente na aplicação
prática de padrões de controle de qualidade embora , lentamente,
a nação comece a caminhar nesse sentido.
Estas considerações autobiográficas, embora superficiais
e penosas, são inevitáveis para que possa conhecer o comportamento
do brasileiro enquanto cidadão, técnico, empresário
ou consumidor em seu ( até bem pouco reservado ) mercado interno
ou em um mercado internacional altamente rico, tecnológico e competitivo.
2. UM NOVO CENÁRIO PARA UMA PEÇA ANTIGA
O pensamento de Michel Foucault, aparentemente nada possui de relacionamento
com outros pensadores desde Ford, Keynes, Marcuse, Mitzberg ou, modernamente
William "Bill" Gates. Mas se a análise do texto for aprofundada,
este ressaltará um indicador comportamental para o gerenciamento
da mega mudança na qual as empresas brasileiras estão participando
como agentes passivos. E essa mega mudança já se faz sentir
no chão das fábricas de todos os portes, onde o ser humano
se vê substituído por máquinas: o mau uso da tecnologia
para fechar as portas às ciências humanas e sociais, cegando
uma visão estratégica mais inteligente que, ampliando o mercado
interno, poderia criar condições sociais mais justas.
A globalização nada mais é do que a antiga concentração
de capital , alterando as relações de capital, trabalho,
produção e consumo. E para a nação sobreviva
enquanto sociedade é essencial que ela sobreviva enquanto economia:
essa é a regra imutável e a fonte do grande dilema social
brasileiro.
Essa concentração de capital, no estágio mundial
em que se encontra, demonstra um poder mais eficaz, mais imperativo, e
mais discriminante que o poder clássico dos estados nacionais. A
globalização, sem o equilíbrio das reações
sociais das nações, levará à cristalização
de uma verdadeira " aristocracia capitalista absolutista" onde o poder
se tornará tão intenso que passará a não depender
das bases onde se construiu e das origens de onde se gerou.
Já é fato, no planeta, de que o valor único de
avaliação de competência - como regra geral - pessoal,
empresarial ou nacional é o patrimônio monetário que
cada um pode acumular.
Esse contexto pode parecer extremamente perverso para o Brasil : um
pais que ainda lida com problemas seculares de má administração
da coisa pública, que apresenta uma dicotomia existencial
entre o bem-estar e a miséria, entre a dignidade do trabalho e o
pragmatismo do lucro. Mas trata-se de uma nação que está
na infãncia da cidadania plena e que, como tal, hesita em caminhar,
mas apresenta outras características , além do individualismo
de seu povo, características essas que, desenvolvidas, poderão
criar a resistência ao poder, idealizada por Foucault, e obter
um razoável equilíbrio na superfície global .
Justamente, por ser individualista, o brasileiro desenvolveu uma curiosa
cultura de tomada de decisão pois, de uma forma negociada,
o brasileiro sempre resolve um problema. Ele opta, no cotidiano, pela negociação
em lugar de exigir formalmente seus direitos. Esse hábito cultural
desenvolveu um senso de criatividade e de intuição que lhe
é típico e que muitos povos latinos, anglo-saxões,
asiáticos, árabes não perceberam e não desenvolveram.
O brasileiro, via de regra, ao não optar pela formalização
e exigência de seus direitos, tornou-se informal e ágil para
reagir , competente e habilidosamente, aos fatos do mundo real, ou
seja, tornou-se qualificadamente competitivo ( não específicamente
no mundo complexo dos negócios, mas nas ações cotidianas
). A alegria e a altivez com que a nação reconhece seus campeões
( e não seus técnicos e profissionais formalmente preparados)
comprova que a nação não aprecia tanto aquele que
possui uma formação e sim aquele que possui a conquista:
o que retrata o perfil trágico, passional e conquistador dos
antepassados ibéricos.
Independente dos diversos bolsões de riqueza, a nação
( e não o estado ) está pobre. Nas décadas de 70 e
80 a nação sonhava que ser rica era sua realidade. Nos anos
90 ela acordou para a realidade da pobreza, do desemprego e da fome. Mas
essa nação , amadurecida, começa a reagir. Nos anos
10 do século XXI haverá um novo cenário e um texto
a representar : se velho ou novo dependerá da capacidade nacional
de assimilar ou reagir ao poder da globalização.
3. O CONHECIMENTO ESTRATÉGICO E A ESTRATÉGIA DE AÇÃO
O fato de autores do hemisfério norte terem um conhecimento desenvolvido
a partir de ambientes diversos do ambiente de negócios brasileiro,
não impede que seus conceitos sejam avaliados e empregados em muitas
situações. Nós não devemos, isto sim,
pensar e agir como eles: seria um erro fatal. Deve-se compreender seus
conceitos e os contextos sobre os quais foram elaborados. O conceito de
estratégia está intimamente ligado aos conceitos de missão,
alvos, competência, competitividade, determinação e
coragem para assumir riscos independente da economia e da cultura.
Cada um desses conceitos é consequência de combinações
e inferências de regras essencialmente comportamentais. Em uma época
em que as fatias de mercado estão cada vez mais povoadas por pessoas
e corporações que oferecem os mesmos produtos, o diferencial
passou a ser o conjunto de qualidade e comunicação, que por
si mesmo garante uma boa dose de subjetividade aos nossos produtos.
A questão moderna é: não basta produzir, mas sim,
produzir um produto que atenda aos conceitos de qualidade daqueles que
consumirão os produtos e divulgá-los com uma linguagem que
os sensibilizem. Esses conceitos, ou padrões de qualidade, se constituem
a partir de regras sociais ou pessoais, a memória pessoal e coletiva
de fatos e informações sobre o produto ou sobre a necessidade
de consumi-lo.
A ação estratégica não deve ser considerada
como uma forma científica de prever ou enfrentar situações.
A estratégia é uma arte, uma ação essencialmente
criadora pela qual se empregam recursos disponíveis para gerar ou
utilizar condições que sejam compatíveis e favoráveis
para o atingimento de alvos específicos. A estratégia não
é uma arma com a qual se atira no alvo e sim a forma com a qual
se atira no alvo, forma esta que compreende regras explícitas e
formais ( a técnica) e regras subjetivas ( o comportamento ).
Na ação estratégica, ou seja, agir de modo a gerar
ou aproveitar condições ideais para atingimento de resultados,
deve-se ter uma compreensão clara do que seja conhecimento. Sua
definição é clara: " Informação ou noção
adquirida pelo estudo ou pela experiência"; " consciência de
si mesmo" ( conforme Aurélio Buarque de Holanda - Dicionário
da Lingua Portuguesa ). O significado é idêntico aquele que
os filósofos davam ao "saber" .
Henry Mitzberg ( Crafting Strategy - Harvard Business Review - Jul-Aug
- 1987 ) caracteriza adequadamente essa noção adquirida pelo
estudo ou pela experiência: " Enquanto a estratégia é
uma palavra que está usualmente associada com o futuro, sua ligação
com o passado não é menos importante. Os administradores
devem estar aptos para viverem a estratégia no futuro, mas eles
devem compreendê-la por intermédio do passado". E é
no passado que se originam as bases de nosso conhecimento: fatos e regras
associados que mediante um estímulo se ajustam e geram novas regras
que caracterizarão uma decisão.
A cultura brasileira é rica quanto às formas de conhecimento
obtidas pela experiência. Estudá-las, individual ou coletivamente,
é um dos focos de nossa proposta. Enquanto outros povos se desenvolveram
acostumados ao conhecimento individual ou coletivo adquirido metodologicamente
( pelo estudo) nosso modo de agir retrata altos níveis de individualismo
e improvisação ( a experiência intuída ).
Conforme analisa o antropólogo Dante Moreira Leite ( O Caráter
Nacional Brasileiro - pág.291 ) " a cordialidade (do brasileiro)
é uma aptidão para o social, não constituindo um fator
apreciável de ordem coletiva, pois nosso comportamento revela um
apego singular dos valores da individualidade e ( citando Sergio Buarque
de Holanda - Raizes do Brasil - pag.227) " raramente nos aplicamos de corpo
e alma a um objeto exterior a nós mesmos" e conclui, "donde nossa
aversão às atividades morosas e monótonas, seja na
vida intelectual, seja nas artes servis; o trabalho adquire, assim um fim
em nós mesmos e não no próprio trabalho.De outro lado,
o individualismo se revela também no vício do bacharelismo.
Enfim, em vários aspectos da vida cultural, revelamos várias
formas de fuga a uma realidade que sentimos como desprezível e mesquina".
Ao retomar o pensamento de Mitzberg e confrontá-lo com os conceitos
antropológicos e sociológicos de Dante e Buarque de Holanda,
conclui-se pela imensa dificuldade de entender esse passado altamente heterogêneo
do brasileiro.
Em contrapartida, descendo ao nivel micro-social das corporações
ou grupos de trabalhadores, o mapeamento dos componentes do conhecimento
( na verdade a caracterização do perfil de cada indivíduo
e a caracterização dos perfis dos grupos e da corporação
( ambiente endógeno ) e os perfis dos mercados ( ambiente exógeno
), se torna factível.
Como afirma Foucault, a identificação da resistência
oriunda "de baixo" capacitará a ação estratégica
com maior realismo. Sem essa visão, qualquer ação
( desde o seu planejamento até sua execução ) estratégica
será um mero exercício teórico de "futurologia", sem
qualquer garantia de compromisso comportamental. A prova prática
dessa afirmação está no fato de que a quase totalidade
das experiências de planejamento estratégico em empresas brasileiras
não produziram resultados eficazes e muitas não passaram
de textos encadernados para pesquisa acadêmica. Os resultados da
fase de diagnóstico empresarial (pré-planejamento) são,
quase sempre, volumosos e detalhados como consequência de características
antropológicas: o indivíduo se esmera em criticar o trabalho
alheio, "culpar" o vizinho ou o governo ( sentido aqui como um repressor
de nossas individualidades - "o grande-pai " : " se ele manda em nós,
se é tão poderoso, então que resolva tudo! " ), adora
propor soluções próprias, mas no momento de agir coletivamente
"não tem tempo" ou não se envolve profundamente pois a idéia
adotada não foi a dele.
4. COM OS PÉS NO CHÃO DA FÁBRICA
Conhecidos os "fantasmas" comportamentais, cabe ao responsável
pela ação estratégica exorcizá-los em sua área
de atuação. Em lugar de aprofundar uma diagnose dos problemas
gerenciais antes da fase de planejamento estratégico, como é
usual e proveitoso fazer em outras nações com culturas diversas
da nossa, deve-se optar, na situação brasileira, pela identificação
individual e, posteriormente, grupal dos elementos que constituam o âmago
da competência ou competência essencial.
C.K.Prahalad e Gary Hamel ( The Core Competence of the Corporation
- Harvard Business Review, May-Jun-1990 ) afirmam que " competências
essencias ("core competence") são o aprendizado coletivo na organização,
especialmente como coordenar diversas experiências ( habilidades)
na produção e integrar múltiplas correntes tecnológicas
". Isso sugere a identificação de regras e fatos inerentes
a cada indivíduo envolvido na produção e nos processos
da própria produção.
Nesse estágio o indivíduo é levado a conhecer
o seu perfil e o seu papel de competência essencial no processo.
Essa revelação atingirá o seu componente individualista
levando-a à compreensão de quanto mais os resultados de suas
ações forem qualitativas, maior qualidade e competitividade
terá o produto ( ou serviço ) do qual participa na elaboração.
Se o indivíduo ou o grupo detém o conhecimento de sua função
e as implicações dessa vinculação, tornar-se-á
um agente de mudança, não só contribuindo para o planejamento
estratégico como atuando na ação estratégica,
de modo compartilhado e responsável.
A sensação de utilidade e relevância atribuirá
a cada indivíduo o seu próprio senso de competitividade e
uma representação de poder ( ou reação ao poder,
no caso, como riscos externos para atingimento de alvos estratégicos
que ele, agora, conhecerá e compartilhará ) pessoal, independente
do seu nível de instrução ou de decisão na
corporação. Isso o levará a participar da ação
coletiva, pela competitividade das individualidades onde a criatividade
e a intuição serão agregados qualitativos.
As inovações tecnológicas passarão a ser
vistas, não como um perigo ao emprego, mas sim como um recurso produtivo
do qual o indivíduo poderá dispor para aumentar o seu conhecimento
( experiência ), seu reconhecimento na sequência produtiva
e, consequentemente, seu poder pessoal.
Mitzberg afirma (The Fall and Rise of Strategic Planning - Harvard
Business Review - Jan-Fev - pag.107 - 1994 ) que a " ação
estratégica é um processo imensamente complexo, o qual envolve
os mais sofisticados, sutis e temporais elementos subconscientes do pensamento
humano" e, citando Arie de Geus (Planning as Learning - Harvard Business
Review -Mar-Apr - 1988) complementa: " O propósito real do planejamento
efetivo não é fazer planos, mas mudar os modelos mentais
que os tomadores de decisão carregam em suas cabeças ".
Mitzberg acrescenta ainda que " O pensamento estratégico, em
contraste ao planejamento estratégico, refere-se a sinteses . Ele
envolve intuição e criatividade. O produto do pensamento
estratégico é uma perspectiva integrada da empresa, uma não-tão-precisamente
articulada visão de direção ".
Essa capacidade de síntese da intuição e criatividade,
levanta o segundo ponto de nossa proposta: o empresariado brasileiro vem
adotando uma estratégia de custos pela qual substitui um indivíduo
com conhecimento ( experiências ) por alguém jovem , na suposição
de que a força de trabalho será maior e o benefício
corporativo também aumentará na razão direta da redução
do custo de mão-de-obra e uma maior disponibilidade individual.
Os empresários, na verdade, estão dando um tiro no próprio
pé. Se é correto que o conhecimento é fundamental
para a ação estratégica e para os resultados
práticos de produtividade, o que esses empresários estarão
fazendo é reduzir, drásticamente, a capacidade da corporação
pensar estrategicamente e de se criar uma "core competence" estável.
Um maior grau de criatividade pode ser encontrado em um indivíduo
jovem, dependendo de suas características mentais, genéticas
ou de educação escolar. Já a intuição
é exclusivamente decorrente de um processo mental que computa inúmeras
regras, fatos e variáveis, ao longo do tempo ( anos após
anos ), para avaliar, planejar e agir. A memória, e sua dimensão
de dados e informações contidas, é fundamental para
enriquecer o conhecimento e o cérebro humano processa essas informações
sob regras sutis produzindo respostas que identificamos como intuição.
Vale relembrar que a cultura brasileira fundamenta-se no conhecimento pela
experiência, em detrimento ao estudo.
E é exatamente por isso que os empresários adotam uma
política suicida ao renegarem profissionais com mais de quarenta
anos. O paradigma de "vestir a camisa" e trabalhar integralmente voltado
aos problemas da corporação causa uma entropia organizacional.
De outro lado, é reconhecido que o ser humano, a partir dos
cinquenta anos, atinge o estágio de conhecimento pleno e é
potencialmente intuitivo. E as corporações dispensam um arquivo
virtual de soluções, na crença errônea e preconceituosa
de que esse indivíduo não é mais produtivo.
Acreditamos que reside, exatamente nesse perfil individual, o
recurso corporativo mais valioso para as ações estratégicas
e de mudanças organizacionais. Se o profissional ( do operário
ao C.E.O.) da corporação amealhou pouco poder surge a chance
de obtê-lo. Se, ao contrário, tornou-se um profissional de
alto saber, está inerente a este perfil o desejo de demonstrar aos
demais indivíduos os seus conhecimentos pessoais, sobre a corporação
ou sobre os ambientes sociais e econômicos.
Esse profissional adequadamente preparado, do nivel do chão
da fábrica (envolvido com os problemas da engenharia de produção
) até ao nivel de direção corporativa, será
o elo entre os indivíduos envolvidos na ação estratégica,
atuando como tradutor, orientador e colaborador das mudanças corporativas.
5. DE DEGRAU EM DEGRAU ATINGINDO OS OBJETIVOS
A última proposta abrange a sugestão dos conceitos de
estratégia incrementalista e abordagem orientada ao processo de
aprendizado nas empresas brasileiras.
A abordagem conceitual para implementação da ação
estratégica orientada ao processo de aprendizado para
desenvolvimento estratégico, procura introduzir no processo a discussão
dos modelos mentais de realidade que as pessoas possuem , com relação
ao ambiente externo e interno à corporação ou a si
próprias. Incluir essas visões, questioná-las, provocar
suas mudanças evolutivas é parte do desenvolvimento do planejamento
estratégico: objetiva-se o envolvimento total das pessoas e a corporação
.
Essa discussão requer o uso de uma linguagem comum e promove
a obtenção do novos e efetivos estímulos comportamentais
que podem levar as pessoas a assumirem compartilhadamente a missão
, objetivos e metas da ação estratégica.
O processo de aprendizado para o desenvolvimento estratégico,
oferece um procedimento metodológico que orienta o desenvolvimento
de características de conhecimento, aflorando talentos intuitivos
e criativos. Nas empresas brasileiras a aplicação dessa metodologia
trará benefícios evidentes . Não se trata de diagnosticar
a corporação ou as pessoas. Trata-se de pensar uma nova realidade
e aprendê-la no contexto dos negócios da corporação.
Ao se obter esse aprendizado e o uso de uma linguagem comum pode-se
evoluir para a ação estratégica incrementalista ,
onde há uma escalada de metas gradual, uma após a outra,
uma dependende da outra. O acompanhamento do mundo real se faz diretamente
e a sensibilização das pessoas aos desvios ou alternativas
da ação estratégica se faz imediata. Em culturas como
a brasileira, esse conceito produzirá resultados visiveis. Outras
metodologias para elaboração estratégica, que requeiram,
longos planejamentos formais e refinamentos sucessivos, dificilmente se
tornarão viáveis.
Como foi visto anteriormente, na ação estratégica
o plano não é importante: vital é o pensamento estratégico
e seus reflexos na formação do conhecimento pessoal e corporativo.
O autor P.J.Idenburg ( Four Styles of Strategy Development -Long Range
Planning Vol.26 Pag.132 - 1993 ) indica: "Além da direção
dos processos e orientação às metas da organização,
nós devemos entretanto reconhecer que os atores da organização
possuem seus próprios objetivos e estão vivenciando seus
próprios processos de aprendizado. Poder e aspectos políticos
do desenvolvimento estratégico e processos de negociação
internos possuem uma imagem "madrasta" na pesquisa de negócio e
educação. Gerência estratégica toca sobre o
essencial do presente e do futuro na organização e é
não só uma questão de racionalidade mas algo como
emoção, dúvida, angústia, intuição
e pressão ("stress") . O incrementalismo lógico reconhece
que a realidade da gestão estratégica compreende o direcionamento
às metas assim como às pessoas. O processo incremental pode
ser direcionado por líderes que reconheçam simultaneamente
seus planos de ação e suas dimensões políticas
" .
O incrementalismo lógico produz forte impacto, no planejamento
estratégico, especialmente no que concerne ao planejamento orientado
às metas ( o que fazer ) e ao orientado aos processos ( como fazer
). O planejamento orientado ao aprendizado produz forte impacto no
planejamento orientado ao processo e fraco impacto ao planejamento orientado
às metas.
6. CONCLUSÃO
Em meio a tantos erros e resultados ambígüos ou ineficazes
registrados na aplicação das técnicas de planejamento
estratégico no Brasil, podemos concluir que, mais do que nunca,
os componentes comportamentais devem ser exaustivamente pesquisados, avaliados
e considerados em uma corporação.
No cenário da economia globalizada, na qual o Brasil foi sumariamente
lançado, ainda convalescente de uma doença inflacionária
que perdurou cinqüenta anos, a avaliação desses componentes
comportamentais ( do indivíduo à sociedade passando por grupos
de interesse ) é vital para obtermos condições mínimas
de competitividade global e manutenção de um lastro mínimo
de poder de sobrevivência e autonomia.
Ao poder monolítico, que corporações internacionais
com grande capital e tecnologia, expressam ao competir com empresas brasileiras,
cabe uma reação que somente se concretizará se essas
empresas determinarem, com habilidade, suas estratégias com relação
a metas do tipo qualidade, pesquisa e inovação tecnológica,
fluxos de capatação de recursos e, principalmente,
valorização do talento e conhecimento dos seres humanos.
As propostas foram apresentadas com o objetivo de promover a reflexão
e a criação e ampliação de novos cenários
e modos comportamentais nos métodos de gestão empresarial
no Brasil. Enfatizamos que a discussão desses cenários, observadas
as proporções de complexidade, deva iniciar no "chão
da fábrica", seguindo o pensamento de Michel Foucault gerando uma
" reação de poder que venha de baixo ".
As metodologias e técnicas para implementação
de ações estratégicas, são secundárias,
ao considerarmos a importância do pensamento estratégico que
deve nascer no cérebro do operário e se entrelaçam
ao pensamento de técnicos e executivos das corporações.
As características nacionais antropológicas e sociológicas
podem e devem ser reorientadas, a partir da capacidade de competitividade
individual para uma capacidade competitiva consensual, onde o conhecimento
seja a arma, a criatividade seja o projétil, a intuição
seja o gatilho e ação estratégica seja a forma como
a mão aciona o gatilho.
BIBLIOGRAFIA
1. Foucault, Michel - Microfísica do Poder- Editora Grall -pag.240/1
- 1979 ;
2. Mitzberg, Henry - Crafting Strategy - Harvard Business Review -
Jul-Aug - 1987;
3. Moreira Leite, Dante - O Caráter Nacional Brasileiro - pág.291
- Pioneira Editora - 1976 ;
4. Prahalad, C.K. e Hamel, Gary - The Core Competence of the
Corporation - Harvard Business Review, May-Jun-1990 ;
5. Mitzberg, Henry - The Fall and Rise of Strategic Planning - Harvard
Business Review - Jan-Fev - pag.107 - 1994 ;
de Geus, Arie - Planning as Learning - Harvard Business Review -Mar-Apr
- 1988;
Idenburg, P.J. - Four Styles of Strategy Development -Long Range Planning
Vol.26 Pag.132 - 1993 .