Jornal do Brasil - Domingo, 15 de novembro de 1998

Petrobras chega às telecomunicações
Regulação versus Competição: o Brasil na Modernidade

A Petrobras botará o pé na área de telecomunicações. Associada ao consórcio inglês liderado pela UK Guaranty, a Gaspetro - subsidiária da Petrobras - instalará 100 quilômetros de cabos de fibras óticas ao longo do gasoduto que liga a refinaria de Paulínia, em Campinas, no interior de São Paulo, a Cabiúnas, no município de Macaé, na Região dos Lagos fluminense.
O consórcio inglês investirá US$ 20 milhões em dinheiro e o faturamento previsto com esse novo negócio da empresa é de US$ 100 milhões ao longo dos próximos 10 anos. A Petrobras utilizará 20% da capacidade de transmissão de dados da nova linha e oferecerá o restante ao mercado. Esse é o primeiro passo da estatal no setor de telecomunicações.
O projeto da empresa é aproveitar a enorme rede de dutos usada para o transporte de gás natural e outros produtos espalhada pelo país (em junho ela chegava a 12.066 quilômetros) para a transmissão de dados. A entrada no setor faz parte da estratégia de diversificação das atividades da companhia, além de suprir necessidades próprias.
Nova empresa - Para enfrentar a concorrência dentro de casa, na mesma linha, a Petrobras alargará seus horizontes, transformando-se, a médio prazo, numa empresa de energia, lembra o presidente da empresa, Joel Mendes Rennó. Para isso, entre outras iniciativas, fará parcerias com a iniciativa privada em empreendimentos termelétricos, onde houver disponibilidade de gás natural.
A principal parceria da Gaspetro, hoje, é no gasoduto Brasil-Bolívia. A primeira etapa dessa obra estará concluída em dezembro, quando estará completada a ligação entre Santa Cruz de La Sierra e Campinas. Em outubro do próximo ano estará pronta a segunda etapa, que ligará Campinas, em São Paulo, a Porto Alegre, no Rio Grande do Sul.
Com 3.100 quilômetros de extensão e capacidade para transportar até 30 milhões de metros cúbicos de gás natural, o gasoduto está sendo construído em parceria entre a Gaspetro, que detém 51% das ações, e várias empresas internacionais: a BHP, da Austrália, a El Paso Energy, do México; a British Gas, do Reino Unido, que formam o grupo BBPP. As outras são a Enron e a Shell.
Em dezembro do ano 2000 deverá entrar em operação o gasoduto Uruguaiana-Porto Alegre, que faz parte do projeto de importação de gás natural argentino, que abastecerá as regiões Sul e Sudeste do Brasil. Esse gasoduto transportará 12 milhões de metros cúbicos de gás natural e resulta de parceria entre a Gaspetro, YPF, Total Globe Gas Venture, Nova Gas International, Techint e Compañía General de Combustibles.
Urucum - A empresa está desenvolvendo, também, o Projeto Gás Natural de Urucum para a Geração Termelétrica. Pronto, ele fornecerá 930 MW à região amazônica, utilizando o gás dos campos de Urucum e Juruá, na bacia do rio Solimões. Nesse projeto participam várias empresas que atuam na área de energia, incluindo-se entre os parceiros o governo do Amazonas.
O Brasil é cercado por bacias de gás, mas ainda produz pouco em relação aos seus parceiros de continente. E um dos projetos do governo brasileiro é mudar a matriz energética do país, que hoje baseia-se fundamentalmente na geração hídrica. O gás participa hoje com apenas 2% dessa matriz e o projeto se propõe a elevar para 10% essa contribuição.
Este ano a empresa criou a Petrobras Transportes, a mais nova subsidiária, que operará as atividades de transporte marítimo, integrando gradativamente a Frota Nacional de Petroleiros, a Fronape. Entenda-se transporte, no caso, de forma ampla, abrangendo armazenagem de granéis, petróleo, derivados e gás.
Empresa enfrenta desafio
Com a flexibilização do monopólio estatal do petróleo, a Petrobras passa por revolução impensável há poucos anos. Ajustando-se aos novos tempos, a estatal está montando operações para aumentar sua capacidade de investimentos em projetos de expansão. No momento, empenha-se em firmar acordos de parceria no valor de US$ 8 bilhões nas áreas de exploração, desenvolvimento e produção de petróleo.
Só na Bacia de Campos são 15 projetos, envolvendo os campos de Roncador, Marlim Sul, Barracuda, Caratinga, Espadarte, Voador, Marimbá, Bijupirá e Salema. O maior deles está voltado para o campo de Albacora Leste, onde serão investidos cerca de US$ 200 milhões. Ali, o volume de reservas é de 390 milhões de barris de petróleo.
Na Bacia de Santos estão previstos investimentos de US$ 300 milhões para desenvolver os campos de Merluza, Estrela do Mar, Caravela e Coral, que poderão produzir 800 mil metros cúbicos de gás por dia.
Esse gigantesco volume de investimentos permitirá à empresa chegar à produção de 1,5 milhão de barris de óleo e 38 milhões de metros cúbicos de gás por dia no ano 2000, segundo as últimas projeções. "Nada mau para quem recebeu o bastão há 45 anos, quando o país consumia 38 mil barris de petróleo importado por dia", comenta o presidente da empresa, Joel Mendes Rennó.
Autosuficiência -Em 1953, o Brasil produzia três mil barris de óleo por dia. Hoje, às vésperas de virar o século, produz 870 mil barris/dia e caminha para a tão sonhada auto-suficiência no abastecimento nacional, dentro de mais cinco anos, se todos os investimentos programados se confirmarem. O faturamento da empresa chegou a US$ 11,1 bilhões no primeiro semestre deste ano e o lucro líquido a US$ 432 milhões. Ao longo de sua história a Petrobras descobriu 29 bacias petrolíferas, guardadas nos 4 milhões de quilômetros quadrados de bacias sedimentares no continente e em 1 milhão de áreas sedimentares marítimas.
Até dezembro do ano, passado a empresa havia identificado reservas totais de 17,2 bilhões de barris equivalentes de hidrocarbonetos. Até julho deste ano, operava 7.304 poços de petróleo; até maio, 22 sondas de perfuração; até junho, 94 plataformas de produção. "Mas ainda há enormes desafios a enfrentar diante da imensidão das bacias já conhecidas e das necessidades de suprimento nacional nos próximos anos", pondera Rennó.
Reservas - Mantida a atual produção, a Petrobrás poderia passar os próximos 24 anos explorando as reservas da Bacia de Campos, sem fazer nenhuma outra descoberta. E não custa lembrar que as grandes companhias de petróleo do mundo teriam, em média, apenas 12 anos de reservas exploráveis, segundo estimativas internacionais.
"Sem pretender tirar o espaço de ninguém, ocuparemos o espaço que considerarmos legítimo, pela eficiência da companhia", afirma Rennó. A Petrobras, reconhece ele, não sabe tudo, não tem toda a tecnologia do mundo e nem recursos ilimitados. Com a chegada das concorrentes estrangeiras, chegarão, também, novas tecnologias e muitos investimentos. "Quem vai ganhar com tudo isso é o país", afirma.
Na área internacional, a Braspetro, subsidiária do grupo, está associada a 70 empresas. Nos nove países onde atua - Angola, Argentina, Bolívia, Colômbia, Equador, Estados Unidos, Líbia, Peru e Reino Unido - mantém 140 contratos.
Com a compra da australiana Santos S/A, a Braspetro deverá dobrar sua produção fora do Brasil nos próximos 18 meses. Essa produção, hoje, é de 55 mil barris por dia, 5% da total.
 

Abertura exige atuação firme da ANP
Regulação versus Competição: o Brasil na Modernidade

A abertura do mercado brasileiro de petróleo à iniciativa privada local e externa passa a exigir maior atuação da Agência Nacional de Petróleo (ANP). Os principais desafios para a regulação do setor estão em equilibrar a velocidade de crescimento do mercado com o interesse público da atividade, na administração dos conflitos de interesses entre as partes, na formação de pessoal especializado e na transição do monopólio para a livre competição.
"A atuação da ANP tem que ser transparente. As regras têm que ser duradouras para garantir a estabilidade necessária a investimentos de longo prazo, exigidos na exploração e produção de petróleo", disse David Zylbersztajn, diretor geral da agência.
O trabalho desenvolvido para dar conta de suas atribuições foi o tema da palestra de Zylbersztajn, no seminário Regulação e competição: o Brasil na modernidade - Setor de petróleo e gás.Cabe à ANP, diz, estimular o ingresso de novos concorrentes que tragam desenvolvimento tecnológico e científico para baixar custos.
Sobre os limites da atividade reguladora, Zylbersztajn define as funções da ANP mais para árbitro do que para agente inibidor. Ele discute, entretanto, até que ponto pode chegar a captura do regulador pelo regulado, ressaltando que é fundamental evitar exageros, mas tendo sempre em vista os interesses públicos.
Os princípios básicos do agente regulador, segundo Zylbersztajn, garantir um ambiente favorável à transição, tendo especial atenção para que os monopólios naturais deixem de ser dogma para se transformarem em residuais, com o passar dos anos. A seu ver, não cabe aos órgãos reguladores a formulação de políticas setoriais. Ele defende a independência e a plena autonomia, com fixação de mandatos para suas diretorias.
Nesse período de transição do monopólio do setor de petróleo à livre concorrência, o diretor geral da ANP lista a supervisão do poder de mercado dos operadores, a organização da entrada de novos participantes, a arbitragem de conflitos, completar o processo de regulação e estimular a eficiência e a inovação.
"Um dos objetivos claros da abertura do setor é o aumento de reservas na exploração e produção de petróleo e gás. O processo deve estar consolidado no prazo de seis meses a um ano", prosseguiu o diretor geral da ANP. Ele destacou que a primeira rodada de licitações de novas áreas de exploração para a iniciativa privada deve estar concluída até maio de 1999, com predominância de campos off shore.
Novas regras para a importação de derivados de petróleo estão sendo definidas. A sua implantação, no entanto, dependerá do Congresso Nacional que irá decidir sobre o pagamento dos subsídios e amortizações da conta petróleo. A dúvida é se haverá essa cobrança sobre os produtos derivados importados.
As limitações enfrentadas pela ANP, relatadas por Zylbersztajn em sua exposição, prendem-se às restrições de contratação de serviços de terceiros para consultorias e formação dos quadros de pessoal especializado da agência. "É mais fácil contratar diretamente, com todos os vínculos empregatícios", critica.
Entre as responsabilidades da ANP, está a apuração de irregularidades. A "herança" recebida, contou Zylbersztajn, foram 11 mil processos para serem julgados pelo colegiado da autarquia. Hoje, 10 meses depois de implantada, a ANP está com apenas 16 processos em análise, nove deles vinculados ao petróleo, informou.
O diretor geral da ANP destacou que todas as decisões são objeto de discussões internas entre os integrantes da diretoria. A independência na elaboração das portarias é total, sempre baseadas na decisão do colegiado. "A autonomia no controle legal não sofre pressão do governo federal. Nos contratos de concessão da Petrobras, cujo controlador é a União, toda negociação foi direta com a empresa, sem qualquer tipo de intervenção do acionista majoritário", afirmou.
A receita da ANP provém de suas próprias atividades e está representada pelo aluguel diário e pelos bônus de assinatura das áreas de concessão.
 

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