GAZETA MERCANTIL, SEGUDA FEIRA, 16, E QUARTA FEIRA, 17 DE FEVEREIRO
DE 1999
Saúde é criterio para contratação
de executivos
Especialistas internacionais dizem que, além
de dietas e da prática esportiva, profissional deve cuidar das emoções
e do espírito
Assis Moreira de Davos
(outros artigos....)
Executivos com ambição de tomarem-se presidentes das empresas
terão que atender um novo critério: administrar bem sua própria
saúde. E a chave para uma melhor saúde não se limita
à prática de esportes ou dietas. Ela passa pelo amor e felicidade.
"A escolha para contratar futuros "chief executive officer" (CEO) será
baseada na característica mais importante do candidato: sua saúde",
alerta o comandante da Wavin, maior fabricante europeu de tubos de plástico,
o holandês Fons Driessen, ao abrir um seminário, sobre gerenciar
a saúde dos CEO".
O holandês - que comanda uma empresa de US$ 1 bilhão de faturamento,
com 5 mil empregados - sustenta que "diplomas de universidades prestigiosas,
grandes performances passadas e uma coleção impressionante
de prêmios não estarão mais no topo das qualificações
a serem examinadas".
Para ter certeza de que o principal executivo trabalhará na sua
capacidade máxima, chegará o dia em que os acionistas exigirão
que os genes dos presidentes sejam examinados para identificar futuras
doenças, "particularmente aquelas vinculadas à deterioração
mental", prevê o professor de neurologia e bioquímica dá
Universidade da Califórnia, Stanley Prusiner.
Nesse ambiente, administrar a própria saúde, no meio de concorrência
acirrada e freqüentes viagens, significa encontrar um equilíbrio
entre trabalho, família, férias, trabalhar e dormir. "Enfrente
as doenças emocional e espiritual do coração - solidão
e isolamento. Ame mais e seja feliz - esta é a chave para ter melhor
saúde", recomenda Dean Ornish, presidente do Instituto de Pesquisa
de Medicina Preventiva e famoso nos Estados Unidos por uma série
de livros e programas de televisão. Para Ornish, um executivo deprimido
nunca chegará ao topo, e está ameaçado de sofrer um
ataque do coração.
Baseada em pesquisas, Arlie Russel Hochschild, professora de sociologia
da Universidade de Berkeley, sugere que o executivo precisa administrar
melhor o seu tempo para controlar o stress. "É preciso fazer pausas
e relaxar, e sentir que há vida fora do trabalho", recomenda.
Ocorre que a globalização impõe um outro ritmo aos
executivos. Um exemplo disso são as fusões de empresas de
diferentes continentes, como a da americana Chrysler e a alemã Daimler.
O ex-presidente da Chrysler, Robert J. Eaton, conta que as videoconferências
entre as duas diretorias, uma nos EUA e outra na Alemanha, são insuficientes.
E precisam ser complementadas por viagens. "Não é fácil",
suspira Eaton.
Cientistas constatam que sucessivas viagens degradam fortemente a operacionalidade
de um empresário, por causa do cruzamento de outras zonas de horário,
"jet lag", fadiga e longas reuniões. A capacidade de julgamento
pode cair 50%, a memória 20% e a habilidade de comunicação
30%, pelos cálculos de Mark Rosekind, presidente e cientista chefe
do Alertness Soluctions, uma empresa dos EUA que trata de questões
como performance, sono e de aplicações ditas estratégicas
para melhorar a produtividade.
"O principal problema para a vida saudável de um executivo é
que ele dorme pouco, pelo menos uma hora e meia a menos que as oito necessárias
em média para um ser humano", diagnostica. "Isso provoca perda de
produtividade e performance, que custa bilhões de dólares
apenas nos EUA". Isso poderia ser evitado com técnicas simples e
práticas, garante Soren Ballegaard, diretor do Centro de Acupuntura
da Dinamarca. "Se o balanço financeiro está positivo, o risco
de falência é menor. É o mesmo caso se no fim do dia
há o superávit de energia, o risco de ataque do coração
é menor". Ele ensina que um "superávit de energia" pode ser
alcançado com uma simples massagem no centro do tórax. "Isso
ativa o sistema nervoso, promove um equilíbrio contra o stress,
e reduz dramaticamente os riscos de um ataque do coração".
Para Dean Ornish, o executivo que quer uma vida saudável deve amar.
Mas não deve cometer o prazer de fumar nem mesmo um charuto Havana
por dia.
OS EXERCÍCIOS QUE FORTALECEM A INTEGRAÇÃO
Daniela D'Ambrosio, de São Paulo
No Brasil, um sedentário com ótimo currículo não
chega a perder o posto para um profissional mediano completamente em forma.
Mas o ditado "corpo são, mente sã" está crescendo
entre as companhias brasileiras, que estão valorizando cada vez
mais os executivos com uma postura saudável - aquele que sabe administrar
o seu tempo e preza a qualidade de vida. Mais do que um executivo disposto
e bem humorado, as empresas querem alguém com disciplina, equilíbrio
e determinação.
"As empresas acham que o executivo que não administra bem a sua
vida, provavelmente não irá fazê-lo na empresa", afirma
Winston Pegler, da Ray & Berndtson. "A primeira tarefa de um headhunter
é entender o ambiente e a cultura da empresa e buscar alguém
que se encaixe nela", explica. "Não fumantes têm preferência
em empresas anti-tabagistas", completa.
As entrevistas já não se restringem apenas à análise
do currículo do candidato. As empresas também procuram avaliar
o estilo de vida do candidato. "Durante a seleção, os candidatos
são questionados sobre os hábitos esportivos e também
como administram seu tempo", diz Cláudia Baroni, do laboratório
Merck Sharp & Dohme. No Pão de Açúcar, a preferência
é declarada. "Não é pré-requisito que o profissional
seja um esportista, mas é um diferencial. Entre um candidato sedentário
e um que pratica esporte, o segundo será contratado", afirma o diretor
adjunto de RH, Fernando Solleiro.
Com um bom currículo, quem não gosta de esportes ou é
obeso não precisa temer a perda de uma vaga em empresas que valorizam
a saúde, mas se for admitido deve ter em mente que será doutrinado.
As empresas tratam de inserir os "menos saudáveis" na sua cultura
- e, de quebra, melhoram consideravelmente sua imagem. Na ditadura do funcionário
saudável, as organizações não se limitam a
oferecer assistência médica e odontológica. Há
um arsenal completo, que inclui "fitnness center", programas de qualidade
de vida, ginástica laboral e até acupuntura, capoeira e shiatsu.
Na Shell há um serviço O8OO, feito por uma equipe especializada,
para os funcionários com problemas emocionais.
Mas não se trata apenas de cuidar do corpo nas horas vagas. Durante
o expediente, religiosamente duas vezes por dia, os funcionários
da produção da Avon param para fazer exercícios preventivos
contra lesão por esforços repetitivos (LER). Na área
administrativa, há uma sessão de ginástica laboral
por dia para combater o estresse.
Quando o patrão é um esportista, o contágio da política
saudável é ainda maior. No Pão de Açúcar,
há seis anos, office-boys, açougueiros, secretárias
e diretores correm ao lado de Abílio Diniz. A maratona desses atletas
do varejo -- que perseguem o objetivo de correr os 42 quilômetros
da disputada prova de Nova York - começa às seis da manhã.
A integração informal entre os funcionários é
muito produtiva, garante o diretor de coordenação comercial,
Paulo Gualtieri. "As conversas que surgem durante a corrida acabam sendo
mais produtivas que uma reunião", diz.
A assistente de Recursos Humanos do Pão de Açúcar,
Márcia Guijarro, 41 anos, já perdeu mais de 40 quilos depois
que começou a treinar. "Depois de correr, você consegue resolver
tudo melhor", afirma. Márcia que corria uma hora e meia por dia
prolongou o treinamento para três horas diárias. A assistente
de RH reforça os exercícios na academia, inaugurada há
dois meses. "O Pão de Açúcar decidiu que qualquer
investimento feito na área de esportes envolverá os funcionários.
Não patrocinaremos times de vôlei ou futebol", diz Gualtieri
Há, ainda, as empresas que também se preocupam com a saúde
mental. Seguindo uma tendência mais holística, a Shell criou
uma linha 0800 disponível para o funcionário e a sua família.
O atendimento é feito por uma consultoria especializada em programas
de apoio pessoal. A empresa não sabe quem usou o serviço
e o teor da conversa. "Muitas vezes o funcionário não resolve
os seus problemas porque tem medo de se expor", diz a diretora de RH, Selma
Paschini.
Na opinião do consultor de saúde da Hewit Associates, Carlo
Hauschilt, o maior êxito desses programas é a valorização
da empresa pelo empregado. "Mas o objetivo principal, de realmente mudar
a mentalidade do executivo, ainda é pouco atingido", diz.