GAZETA MERCANTIL - QUARTA-FEIRA, 3 DE JUNHO DE 1998 Página C-2
Acordos mudam cenário da Internet
Empresas como Disney, AT&T e Microsoft mostram estratégias para
conquistar usuários.
Business Week
Em apenas uma semana, os contornos da lnternet mudaram. A Walt Disney Co.
anunciou que estava comprando os dois terços restantes da Starway
Corp. ainda não controlados pela empresa, no final de abril. Quatro
dias depois, a Excite Inc. concordou com o pagamento de US$ 70 milhões
à Netscape Communications pelo acesso especial de seus visitantes
na lnternet.
No mesmo dia, a empresa de pesquisa Lycos Inc. anunciou um acordo de distribuição
com a AT&T WorldNet, seguido pela divulgação de um acordo
parecido da Excite com a AT&T no mesmo período.
Não se trata apenas de outra rodada de acordos em tempos de lnternet.
Essas manobras são as mais recentes - e as maiores - por companhias,
que lutam para se tornar grandes portais de entrada para a infovia. Cada
um desses portais espera atrair milhões de consumidores diariamente,
que iniciarão ali suas aventuras pela rede e permanecerão
no site, enquanto utilizam entrega de e-mail grátis, fazem buscas
na rede ou utilizam outros serviços.
É um esforço total para tentar sobreviver. À medida
que a vasta rede se divide em apenas um punhado de canais-chave - parecidos
com as redes de TV dominantes - atrair usuários é crucial.
Assim como ocorre com as principais redes de TV, quanto maior o número
de usuários, maior a verba de publicidade, esses sites podem exigir
uma ajuda providencial para as empresas da rede desesperadas por transformar
suas apostas em negócios reais.
A hora para essa transformação nunca pareceu estar perto.
Um portal como Yahoo! possui 30 milhões de usuários diferentes
todos os meses - pouco abaixo dos 33,3 milhões de telespectadores
que o seriado de televisão "Seinfeld" alega ter. "É um período
catalítico para as companhias nesse espaço", afirma Mark
Mooradian, analista da Jupiter.
De fato, esse é o motivo de a Netscape e outras companhias estarem
tão dispostas a formar alianças e aumentar sua massa crítica
de usuários. A perspectiva está atraindo anunciantes, que
sentem finalmente a formação de um mercado de massa. A receita
publicitária deverá alcançar US$ 4,9 bilhões
no ano 2000, comparando-se ao US$ 1 bilhão no ano passado, segundo
a Jupiter. "E uma guerra por fatia de um potencial mercado", declara Keith
Benjamin, analista da BancAmerica Robertson Stephens.
E a guerra está apenas ficando pior. A mais recente rodada de associações
aumentou as apostas. Com a aquisição da Starway pela Disney,
que lhe confere a capacidade de oferecer esportes, noticiário e
entretenimento, hoje destaca-se quase uma dúzia de grandes portais
concorrentes. E os peritos garantem que quatro ou cinco sobreviverão.
A America Online, maior serviço "on line", é considerado
um dos principais concorrentes de longo prazo. Seus usuários respondem
por 38% da fatia da infovia originária de residências e que
utilizam tipicamente o site aol.com como trampolim. O grande número
de visitantes da Yahoo! dão a este serviço uma liderança
em reconhecimento de marca difícil de ser superada, segundo os analistas.
E a Microsoft Corp., que dispõe de amplos recursos financeiros e
planeja criar neste ano um megasite denominado "Start", é sempre
uma boa aposta.
Excite aceitou pagar US$70 milhões à Netscape
para oferecer acesso especial à rede.
O cenário deixa apenas uns dois lugares abertos, situação
que certamente provocará mais alianças. Mas desta vez, afirmam
os especialistas, os aspirantes tentarão fechar parcerias que usam
o exemplo de sucesso da AOL, vinculando seu conteúdo e serviços
de acesso à lnternet.
A Yahoo! fez exatamente isso. Em janeiro, anunciou um acordo com a MCI
Communications Corp., em que os clientes dessa operadora de serviços
de longa distância são encaminhados ao site da Yahoo!. Em
maio, a Lycos e a Excite fecharam acordos parecidos com a AT&T. "Outros
acordos deverão ser formalizados", diz Mooradian, que cita os provedoras
de serviços Netcom, Earthlink e MindSpring como prováveis
sócios aspirantes a portais promissores.
Também haverá mais serviços sofisticados. À
medida que as empresas tentam superar umas às outras, acrescentarão
serviços variando de ligações telefônicas de
longa distância de baixo custo pela rede até informações
sob medidas. A Microsoft, por exemplo, comprou recentemente a Firefiy Network,
detentora de tecnologia que monitora o comportamento na lnternet e o serviço
pode recomendar produtos. Agora os portais concorrentes deverão
melhorar suas ofertas com serviços similares aos alertas de e-mail.
A Yahoo! tem um chamariz próprio. Através de um acordo com
a operadora telefônica IDT Corp., a Yahoo! oferece ligações
de longa distância pela rede, que podem custar 95% menos do que as
chamadas regulares. A Netscape diz que planeja lançar um serviço
semelhante. "As companhias continuarão acrescentando serviços
após serviços para ficar à frente", afirma o analista
Ron Rappaport da Zona Research.
Um exemplo é o acordo Netscape-Excite, que deixou intrigados analistas
e investidores. A Excite está pagando US$ 70 milhões para
obter 50% do tráfego de busca da Netscape no primeiro ano do acordo.
A Excite aposta em um acréscimo de oito milhões a dez milhões
de "page views" diárias. Ela oferecerá dez áreas de
conteúdo na "home page" da Netscape, incluindo compras e artes.
E a Excite dividirá com a Netscape a receita de publicidade que
vender nas áreas de busca e de conteúdo.
Analistas questionam se o acordo de elevado custo é compensador.
Sob ataque do browser Explorer da Microsoft, a participação
do produto da Netscape caiu de 85%, no final de 1996 para 60% neste ano.
A Netscape afirma que sua fatia no segmento subiu em março, depois
de sua recente decisão de oferecer o produto gratuitamente.
Jupiter estima que a receita publicitária deve chegar
a US$ 4,9 bilhões no ano 2000.
Outros especialistas também perguntam se a Excite conseguirá
o que quer da parte publicitária do acordo. Apesar de que o segundo
maior serviço de busca na lnternet será responsável
pela venda de todos os anúncios no segmento de busca e de conteúdo,
não se sabe se conseguirá vender o suficiente para recuperar
os US$ 70 milhões. "Esse acordo vai demorar para dar retorno", afirma
Benjamin, que adiou sua previsão de quando a empresa atingirá
o ponto de equilíbrio, para o quarto trimestre, em parte devido
aos custos associados à transação.
Esse não é o único risco. Ao trabalhar com a Netscape,
a Excite poderá diluir sua marca e ser superada por seu parceiro
mais dominante. A Excite está ajudando a fortalecer o portal de
outra empresa em vez de reforçar seu próprio site, observa
Jeffrey Mallett, chefe de operações da concorrente Yahoo!,
que junto com a Infoseek, Excite e Lycos, mantém um serviço
de busca na Netscape nos últimos dois anos. Mallet afirma que a
Yahoo! não quis crescer dependendo da Netscape: "Não queremos
voltar à heroína".
George Bell, executivo-chefe da Excite, insiste que o tráfego garantido
pela Netscape cobrirá facilmente seu investimento. Apesar de a Excite
comercializar apenas 13% a 15% de seu espaço publicitário,
o espaço em áreas de grande visitação como
a Netscape é vendido a preço mais alto. E a rede cresce com
tanta velocidade que aumentar o reconhecimento de marca e o tráfego
continua sendo sua principal tarefa. "Acreditamos que é território
bastante virgem", diz Bell. "Veja os US$ 70 milhões como um pagamento
de entrada em um leasing de um imóvel de primeira categoria."
Surpreendentemente, no entanto, a Excite não acertou um acordo exclusivo
com a Netscape, que está dividindo os restantes 50% de sua receita
gerada pelos serviços de busca neste ano entre outras ferramentas.
O negócio de busca é lucrativo para a Netscape, que gerou
US$ 35 milhões a US$ 40 milhões em pagamentos de serviços
no segmento no ano passado.
Para a Netscape, a parceria com a Excite faz parte de um jogo tardio no
mercado de consumidor. Quando a Netscape lançou seu site NetCenter,
em setembro passado, destinava-se principalmente ao mercado corporativo,
enquanto o campo de usuários finais ficou para a AOL, Microsoft
e Yahoo!.
A Netscape percebeu logo que estava deixando escapar um grande mercado
e começou a adicionar serviços para esse público no
seu site. Com o acordo da Excite, a Netscape obtém novo conteúdo,
sem falar no dinheiro de que tanto necessita. A companhia teve prejuízo
de US$ 11 5,5 milhões no ano passado.
Por ora, o jogo é oferecer serviços que imitam outros. "Nós
estamos brincando de pular amarelinha", declara Barak Berkowitz, vice-presidente
de marketing da lnfoseek, ferramenta de busca sediada na Califórnia.
Mas se os sites esperam conseguir a lealdade dos volúveis internautas,
precisam encontrar algo para os distinguir dos demais.