GAZETA MERCANTIL, QUINTA-FEIRA, 12 DE NOVEMBRO DE 1998

O terceiro setor atrai executivos

Cresce o número de executivos interessados em administrar as chamadas Organizações Não Governamentais (ONGs) e lidar com questões sociais.

Patrícia Campos Mello, de São Paulo

Ao assumir a superintendência do Instituto São Paulo Contra a Violência, em março, o executivo Fernando Eliezer Figueiredo, de 33 anos, não fazia idéia do dia-a-dia eclético que teria pela frente. Em poucos meses, estaria rodando pelas ruas do violento bairro de Jardim Ângela, Zona Sul de São Paulo, conversando com moradores de favelas e tentando quebrar o código de silêncio. Na sua agenda também figuram freqüentes reuniões na Delegacia Geral de Polícia, para discutir o treinamento dos policiais e melhorias na segurança pública, e encontros com empresários, para arrecadar fundos.
Figueiredo nem de longe se enquadra no perfil tradicional do administrador de entidades sem fins lucrativos. No currículo deste administrador de empresas, constam grandes empregos em multinacionais como Sanbra, Colgate-Palmolive, e atuação como empresário e consultor de negócios. "Aceitei o desafio de mudar de área porque o terceiro setor vai se desenvolver muito nos próximos anos", diz Figueiredo. "Além disso, entro em contato com uma realidade que não podemos mais evitar: moro no Morumbi, a 20 minutos do Jardim Ângela, e nunca tinha ido a esse bairro", afirma.
Figueiredo é símbolo da crescente migração de executivos qualificados do setor privado para o terceiro setor. Com o aumento da profissionalização de entidades sem fins lucrativos, essas organizações estão deixando de ser depósito de aposentados e socialites que querem fazer caridade. O terceiro setor está sendo encarado como um novo mercado de trabalho, com bastante demanda para executivos.
De acordo com Antônio Mendes de Almeida Júnior, coordenador do curso de Administração Pública da Fundação Getúlio Vargas (FGV), a tendência é mundial e a instituição planeja montar um MBA para gestão do terceiro setor - a exemplo de universidades americanas como a University of San Francisco, Boston University e Johns Hopkins University. Na FGV, é cada vez maior o número de alunos que optam em trabalhar em Organizações Não Governamentais (ONGs) depois de formados. Nos Estados Unidos, segundo Almeida, de cada 10 pessoas empregadas, 4 estão no terceiro setor. No Brasil, a proporção ainda é de 10 para 1. "Mas estimamos que esse número chegue 3 em cada 10 pessoas empregadas no ano 2000".
O idealismo certamente é parte da motivação desses executivos, uma vez que a remuneração costuma ser 20% mais baixa que no setor privado. Mas eles também vislumbram novos desafios para suas carreiras: estão tentando trazer sua visão empresarial para instituições, administradas, na maioria dos casos, de forma amadorística e intuitiva. A gestão do terceiro setor exige habilidades específicas, bem diferentes da iniciativa privada, para a captação de recursos, trabalho de equipe, prazos e ainda muita diplomacia nas relações humanas. Como diz o guru Peter Drucker, criador da Peter F. Drucker Foundation for Nonprofit Management, "para organizações sem fins lucrativos, ser guiado pelo mercado é tão importante quanto ser guiado por um ideal".

Executivos querem levar a visão empresarial para a administração das entidades sem fins lucrativos.

Para Roberto Galassi Amaral, superintendente do Grupo de Institutos, Fundações e Empresas, o Gife, a gestão no terceiro setor precisa ser ainda mais eficiente que no setor privado. "Se você fizer um gerenciamento inadequado de recursos em uma empresa, deixa de fabricar um motor. No terceiro setor, deixa de salvar uma criança", exemplifica.
Amaral, como Figueiredo, não tinha o terceiro setor em seus planos de carreira. Mas acabou encontrando um ótimo terreno para aplicar sua experiência empresarial. O executivo trabalhou, na Mesbla, na Pirelli, no Banco Noroeste e na lochpe-Maxion. Nesta última, ficou por 5 anos, como gerente de desenvolvimento de Recursos Humanos. Entre abrir um negócio próprio e chefiar o Gife, optando pela superintendência do Instituto - que reúne 40 iniciativas sem fins lucrativos e tem como missão aperfeiçoar os modelos de investimento social e capacitar aqueles que trabalham no setor.
"O RH e o terceiro setor são meio aparentados: um lida com uma comunidade interna de pessoas e o outro trabalha para essa mesma comunidade, só que ampliada", diz o superintendente.
Em tese, os dois negócios são parecidos, mas existe uma diferença crucial: no terceiro setor, não existe a lógica do lucro. É uma dinâmica muito particular, que exige jogo de cintura do administrador. "Não existe visão de curto prazo, rapidez. Existe eficiência dos projetos", diz Amaral. A velocidade dos processos é a maior diferença. Nas empresas, trata-se de um caminho definido: diagnóstico, planejamento, execução. No terceiro setor, existem alguns degraus a mais: o lado político, a negociação, a arrecadação de recursos.
Em contrapartida, a motivação dos funcionários não é problema para esses administradores. "O setor privado paga consultores para implantar um bom clima organizacional e elevar a motivação", diz Amaral. "Aqui dentro, eu encontro isso de graça, por causa da transparência, do verdadeiro trabalho de equipe e o idealismo dos colaboradores".
Para Almeida, existem duas competências essenciais para a gestão do terceiro setor: conhecer a técnica de captação de recursos e o marketing dessa área. "No setor privado, pode-se minimizar gastos para maximizar lucros; no setor estatal, existem orçamentos e impostos, já no terceiro setor, tudo fica a cargo da arrecadação de fundos", diz o professor da FGV. Por isso, uma boa rede de contatos, um conselho administrativo influente e bom trânsito entre empresários são ferramentas indispensáveis. Já o marketing tem de ser eficiente para vender a idéia de que a organização vai produzir resultados e dar visibilidade para a empresa que está fazendo contribuições.
Antônio Carlos Martinelli, 64 anos, diretor-presidente do Instituto C&A, ressalta a importância da diplomacia na gestão do terceiro setor. "As parcerias não são simples: é necessário um conhecimento mútuo, as entidades as vezes são meio desconfiadas, acham que as empresas querem levar alguma vantagem", diz Martinelli. "Não adianta querer implantar métodos empresariais nas pequenas organizações a ferro e fogo", garante o executivo.

Ex-diretor de RH assumiu o Instituto C&A com a missão de profissionalizar o antigo "Comitê de Caridade".

Apesar do importante lado de marketing das iniciativas, o objetivo deve sempre ser centrado na demanda do projeto, e não apenas na visibilidade que ele vai trazer. "É aquela velha história: prefeitos preferem fazer viadutos em vez de canos subterrâneos".
Martinelli atuou por 10 anos como consultor da PriceWaterhouse (hoje PricewaterhouseCoopers) e 10 anos como diretor de RH da C&A. O executivo já está há 7 anos à frente do Instituto. "Entrei no terceiro setor quando eles resolveram profissionalizar o Instituto", conta. "Anteriormente, tinha um trabalho muito incipiente, chamado de Comitê de Caridade".
Ele também integrou suas experiências anteriores para liderar o Instituto, que tem como missão o "empowerment" de entidades voltadas para a educação, isto é, dotá-las de recursos ao mesmo tempo em que as ensinam a geri-los. "Tento dar uma visão empresarial para que uma escola pública, por exemplo, entenda que seus alunos são "clientes" e ela tem de atendê-los bem".
Flora Lovato, 40, gerente-geral da Fundação Dorina Nowill para cegos, diferencia-se de outros executivos "migrantes" por ter todo um histórico de trabalho social. Flora sempre atuou no terceiro setor como voluntária. Trabalhou com as Comunidades Eclesiais de Base e com movimentos sociais de mulheres, sempre na parte da mobilização.
A executiva, formada em Comunicação, conciliava seu papel de voluntária com empregos no grupo Roche, na lochpe-Maxion e docência em universidades. Até que resolveu passar de vez para o outro lado, ao assumir a gerência de projetos na Fundação lochpe-Maxion. Há um mês, está encarando o tarefa de chefiar a fundação encarregada de reabilitação de deficientes visuais.
"O grande desafio do terceiro setor é se organizar, porque, na maioria das vezes, ele continua sendo gerido pela boa vontade e intuição", diz Flora. Para ela, esse tipo de gestão não supre mais o nível de qualidade que as entidades precisam atingir. "Existe muita competição por fundos entre as instituições".
Apesar das vantagens no ambiente de trabalho e do desafio de um tipo de administração bem diferente, os executivos que "passaram para o outro lado" sofrem com uma remuneração menor. A remuneração costuma ficar bem abaixo da encontrada no setor privado. "O problema é que o terceiro setor vem de uma cultura de voluntários", diz Fernando Figueiredo. "Mas acredito que a alta demanda por executivos experientes deve mudar essa situação".
Sérgio Franco Averbach, diretor da Egon Zehnder, recrutadora de executivos, garante que um salário um pouco menor não assusta os executivos, que colocam na balança o clima das organizações e seus ideais. Ele calcula que esteja fazendo 2 recrutamentos por ano para o terceiro setor. Nos Estados Unidos, o recrutamento para o terceiro setor já é bem estabelecido. "Aqui, está crescendo, mas a maioria das colocações ainda acontece por meio de indicação".
Entre os recrutamentos que fez, Averbach lembra-se de executivos de multinacionais inicialmente relutantes, mas depois mostrando "olhos brilhantes" ante o novo desafio. "Não me lembro de um caso em que o executivo tenha recusado a proposta com um não, obrigado, não quero", diz.